← Voltar
Conflitos

O mundo se volta para um mercado de petróleo pós-Irã que compensa a maioria dos volumes do Hormuz

20/07/2026 · 853 palavras

O bloqueio do Estreito de Ormuz pelo Irã, desde o início do conflito com EUA e Israel em fevereiro, acelerou uma corrida global por rotas alternativas ao Hormuz capazes de compensar o fluxo de petróleo interrompido. Segundo estimativas do Goldman Sachs, capacidade dutoviária suficiente para cobrir mais de 45% das exportações pré-guerra do Golfo Pérsico deve estar disponível até o final do próximo ano — e esse percentual pode superar 60% até 2028.

O fechamento do estreito representa o maior choque já registrado no mercado de petróleo. Pelo Ormuz transitavam cerca de 20 milhões de barris por dia, o equivalente a 25% de todo o comércio global de hidrocarbonetos. Com a paralisação, o preço do barril Brent subiu cerca de 30% em relação ao período pré-guerra, chegando próximo de US$ 120 — o maior patamar desde o início da guerra na Ucrânia. O Irã chegou a declarar que o mundo deveria se preparar para o petróleo a US$ 200 o barril.

Rotas alternativas ao Hormuz ganham escala

Diante da paralisação, produtores e compradores aceleraram a expansão de corredores terrestres e dutoviários. A Arábia Saudita amplia a capacidade do seu pipeline Leste-Oeste para escoar petróleo ao Mar Vermelho, contornando o estreito. Os Emirados Árabes Unidos operam o pipeline Habshan-Fujairah e avançam em um novo corredor Oeste-Leste, com 50% das obras concluídas — a firma de análise Kpler estima que ele poderia entrar em operação no início do próximo ano.

No Iraque, milhares de caminhões transportam petróleo bruto até portos sírios no Mediterrâneo. A Síria, que não movimentava volumes do Oriente Médio há meses, já responde por mais de um quarto dos volumes regionais. Um consórcio que inclui a Chevron estuda reconstruir o pipeline Kirkuk-Baniyas, danificado há décadas, enquanto a Turquia propõe estender o duto Kirkuk-Ceyhan até o porto iraquiano de Basra. O Kuwait, por sua vez, negocia com Arábia Saudita e EAU para escoar sua produção via expansões dos sistemas vizinhos.

O Goldman Sachs estima o tempo médio de construção de projetos de pipeline na região em 2,5 anos, com execução tipicamente mais rápida em resposta a interrupções de oferta. Em um cenário acelerado, a capacidade alternativa poderia atingir 75% do fluxo pré-guerra até 2028.

Resposta internacional e reservas estratégicas

Para conter a alta dos preços no curto prazo, a Agência Internacional de Energia (AIE) aprovou por unanimidade a liberação de 400 milhões de barris de reservas estratégicas de emergência — o maior volume já liberado na história da agência. Especialistas estimam que o montante seria suficiente para substituir aproximadamente 20 dias do fluxo que passava pelo estreito, o que limita seu efeito caso o conflito se prolongue.

A diretora técnica do Ineep, Ticiana Álvares, alertou que, se as tensões se aprofundarem, “os efeitos sobre o mercado de petróleo e gás global tendem a se aprofundar, podendo resultar em um quadro mais complexo no longo prazo.” Índia e Japão já declararam o estreito zona proibida para suas embarcações comerciais, o que reforça a pressão por alternativas estruturais.

Brasil como fornecedor alternativo

Com 80% do petróleo que transitava pelo Ormuz tendo destino à Ásia em 2025, segundo a AIE, a pressão por fontes alternativas virá principalmente de compradores asiáticos. Nesse contexto, a Petrobras é apontada como potencial beneficiária do reordenamento geográfico da oferta global. O Brasil emerge como alternativa de fornecimento para compradores asiáticos e europeus, com potencial de elevação da produção nacional.

A China, maior importadora de petróleo do Golfo, teria capacidade de absorver a interrupção iraniana por cerca de dois meses com seus estoques, segundo o Ineep — uma janela que pode favorecer exportadores alternativos como o Brasil. Para operadores de comex brasileiros que dependem de fornecedores do Golfo Pérsico, o monitoramento das novas rotas dutoviárias e seus reflexos em prazos e custos de entrega se torna prioritário.

FUP Explica

O mercado de petróleo está sendo forçado a uma reconfiguração estrutural que pode durar anos — e isso afeta diretamente quem importa ou exporta commodities com qualquer grau de dependência de energia ou derivados de petróleo. No curto prazo, a volatilidade do barril pressiona o custo de importação de combustíveis, petroquímicos e insumos industriais, o que tende a se refletir em margens mais apertadas para importadores brasileiros desses segmentos. Os fretes de petroleiros na região permanecem elevados, e qualquer nova escalada pode piorar esse quadro antes que as rotas alternativas ganhem capacidade real.

No médio prazo, o cenário é mais ambíguo para o Brasil. Se os pipelines alternativos avançarem conforme projetado e o conflito se prolongar, o país pode consolidar uma posição relevante como fornecedor alternativo para a Ásia — especialmente para a China, que terá esgotado seus estoques estratégicos em algum momento. Isso abre oportunidade para a Petrobras e para operadores de comex que trabalham com exportação de petróleo bruto ou derivados. Por outro lado, uma resolução rápida do conflito pode esvaziar esse espaço antes que o Brasil consiga capturá-lo. O ponto de atenção imediato é monitorar o ritmo de avanço das obras dos pipelines alternativos e os sinais de demanda asiática — são esses indicadores que vão definir se a janela de oportunidade se abre de verdade ou fecha antes de ser aproveitada.