*Instabilidade alcançou modelos E190-E2 e E195-E2, afetou mais de 8 mil passageiros no Brasil e também foi registrada por companhias estrangeiras; fabricante e fornecedores investigam a origem do problema
Mais de 8 mil passageiros tiveram seus planos de viagem alterados na terça-feira (22), depois que uma instabilidade na recepção do sinal de GPS atingiu aeronaves E190-E2 e E195-E2 da Embraer e levou a Azul a cancelar mais de 80 voos. A interrupção também colocou em risco o fluxo de cargas transportadas nessas operações, com possibilidade de atrasos e necessidade de remanejamento de mercadorias, embora a companhia não tenha informado o volume afetado.
O problema, registrado em aviões equipados com sistemas da Honeywell, também afetou companhias no exterior e mobilizou a fabricante brasileira e seus fornecedores em busca da origem da ocorrência e de uma solução definitiva.
Segundo o UOL, os aviões da Azul voltaram ao serviço ainda na noite de terça-feira, embora a causa da instabilidade não estivesse confirmada naquele momento. Informações reunidas pelo UBS BB indicaram que a Embraer montou uma sala de crise com a Honeywell para investigar o episódio. Uma comunicação enviada pela fabricante aos operadores apontava ainda que a reinicialização do sistema permitia recuperar o sinal de GPS apenas temporariamente.
A Azul classificou o episódio como uma “instabilidade global no sistema de GPS” e informou que os passageiros atingidos por cancelamentos e atrasos estavam recebendo a assistência prevista pela Resolução 400 da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). A companhia afirmou ainda que as medidas operacionais foram adotadas com foco na segurança.
A ocorrência não ficou restrita ao Brasil. De acordo com informações reunidas pelo UBS BB, KLM Cityhopper, Porter, Luxair e Binter Canarias também enfrentaram a instabilidade.
A Embraer confirmou relatos de problemas na recepção do sinal de GPS em algumas aeronaves, entre elas modelos E2, e afirmou trabalhar em conjunto com fornecedores e operadores para solucionar o caso. A fabricante também declarou que o episódio não comprometeu a segurança dos voos.
Embora as operações tenham sido retomadas, o episódio levantou questionamentos entre participantes do mercado sobre possíveis reflexos nas encomendas da Embraer. O UBS BB, entretanto, afirmou não identificar, naquele momento, efeitos duradouros para a fabricante. O banco observou ainda que, em ocorrências anteriores, os custos relacionados às interrupções ficaram com as companhias aéreas, enquanto as correções foram assumidas pelo fornecedor do equipamento ou pela origem do sinal. A avaliação é preliminar e não determina quem poderá arcar com eventuais despesas neste caso.
A instabilidade ocorre justamente quando a Embraer reforça a presença dos jatos E2 entre as principais companhias aéreas brasileiras. Até recentemente, essa operação estava concentrada principalmente na Azul, que se tornou, em 2019, a primeira empresa do mundo a operar comercialmente o E195-E2.
O cenário começou a mudar com a entrada da Latam, que anunciou, em setembro de 2025, a compra firme de 24 aeronaves do modelo, além de opções para outras 50 unidades.
As entregas foram programadas para começar no segundo semestre de 2026 e, apesar do episódio envolvendo o GPS, a Latam informou que mantém a encomenda. Quando anunciou o pedido, a companhia afirmou que os novos aviões poderiam ajudar a atender mercados de menor demanda e indicou potencial para acrescentar até 35 destinos à sua operação na América do Sul.
Ainda permanecem dúvidas, contudo, sobre a origem exata da instabilidade e sobre eventuais intervenções adicionais nas aeronaves. Até a publicação das reportagens, a Embraer não havia informado se os E195-E2 encomendados pela Latam utilizam o mesmo equipamento ou configuração envolvidos no episódio. Dessa forma, embora os aviões tenham retomado as operações e os pedidos permaneçam mantidos, a identificação da causa da falha continua sendo o principal ponto em aberto.
FUP Explica
O episódio expõe um risco que vai além do transtorno imediato para os passageiros. Uma falha de GPS que se espalha por operadores em vários países ao mesmo tempo, sem causa confirmada, levanta questões sérias sobre a robustez dos sistemas embarcados nos jatos E2, e isso pode pesar na percepção de compradores e investidores, mesmo que o UBS BB tenha descartado, de forma preliminar, efeitos duradouros para a Embraer.
No plano econômico, a disputa sobre quem paga a conta é relevante. O histórico citado pelo UBS BB sugere que os custos operacionais ficam com as aéreas, enquanto a correção técnica cabe ao fornecedor do equipamento ou à origem do sinal. Neste caso, porém, a origem da instabilidade ainda não foi determinada, o que mantém essa questão em aberto. Para a Azul, que já enfrenta pressões financeiras conhecidas, absorver o custo de mais de 80 cancelamentos e da assistência a mais de 8 mil passageiros, conforme exige a Resolução 400 da Anac, representa um impacto imediato não desprezível.
O momento é delicado para a Embraer porque a família E2 está justamente em fase de expansão no mercado doméstico, com a Latam prestes a iniciar as entregas. A encomenda foi mantida, mas a pergunta que fica sem resposta, até agora, é se os aviões encomendados pela Latam usam o mesmo equipamento envolvido na falha. Enquanto isso não for esclarecido, a incerteza técnica permanece como pano de fundo para qualquer avaliação sobre o programa E2.