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Proibição das bets pode devolver bilhões ao consumo mas provocar um apagão na publicidade
Economia por: Bianca Lelis

Imagem gerada por IA

Proibição das bets pode devolver bilhões ao consumo mas provocar um apagão na publicidade

25/09/2026 · 1207 palavras

Fim das plataformas atingiria um mercado de centenas de bilhões de reais, com reflexos sobre consumo das famílias, publicidade, emissoras e arrecadação, enquanto Executivo avalia cobrança por gastos do SUS

O governo federal prepara para esta sexta-feira (25) o anúncio da proibição das plataformas de apostas no Brasil, medida que deve alcançar cassinos online e apostas esportivas e provocar efeitos em diferentes setores da economia. A decisão pode devolver parte da renda comprometida com jogos ao consumo de bens e serviços, ao mesmo tempo em que ameaça receitas de emissoras, agências de publicidade e outros negócios que passaram a depender dos investimentos das bets.

A decisão do governo é pela proibição total, embora a forma jurídica para implementar a medida ainda esteja em definição. Entre as alternativas analisadas estão uma medida provisória, que permitiria efeitos imediatos, e um projeto de lei em regime de urgência. O pacote, que inclui as apostas esportivas, não prevê período de transição para as operadoras e deve ser acompanhado por medidas contra empresas que continuarem funcionando ilegalmente.

O tamanho do impacto econômico pode ser observado pelo volume de recursos absorvido pelas plataformas. Um estudo do Centro Internacional Celso Furtado estima que as bets retiraram entre R$ 120 bilhões e R$ 141 bilhões da atividade econômica brasileira em 2025. O levantamento calcula uma transferência líquida de R$ 62,5 bilhões das famílias para as empresas de apostas e considera também os efeitos indiretos provocados pela redução do consumo, especialmente entre famílias de menor renda.

Com menos dinheiro disponível para compras, esses recursos deixam de chegar ao comércio, aos serviços e a outros setores produtivos, reduzindo sucessivamente a geração de renda ao longo da cadeia econômica. É justamente esse efeito multiplicador que faz com que o impacto estimado sobre a atividade seja significativamente superior ao valor perdido diretamente pelos apostadores.

Além disso, os custos associados às bets também alcançam a saúde pública. Um levantamento do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS), citado pelo UOL, estima em R$ 38,8 bilhões por ano os danos sociais relacionados às apostas e aos jogos de azar no país. Desse total, R$ 30,6 bilhões correspondem a custos relacionados à saúde física e mental. Em comparação, a arrecadação tributária do setor chegou a R$ 6,8 bilhões entre janeiro e setembro de 2025, equivalente a 17,5% do custo social estimado pelo estudo.

Se parte da economia pode recuperar recursos hoje direcionados aos jogos, outros segmentos enfrentariam o movimento contrário. O mercado publicitário está entre os mais expostos. Profissionais ouvidos pelo Meio & Mensagem alertam para a possibilidade de um “apagão” de receitas em veículos e agências diante da retirada de um dos maiores grupos de anunciantes dos últimos anos.

Dados do Ibope Advertising Intelligence reunidos pela publicação indicam que 15 empresas ligadas às apostas investiram aproximadamente R$ 3 bilhões em mídia em 2025.

Os primeiros sinais dessa retração já chegaram às emissoras. De acordo com o Portal Making Of, Betano, Novibet, Superbet e Esportes da Sorte notificaram canais de televisão sobre possíveis rescisões de contratos caso as apostas sejam proibidas. Dados da Tunad apontam que as bets movimentaram cerca de R$ 180 milhões em publicidade e patrocínios somente em agosto.

A Record decidiu não negociar uma nova cota de patrocínio de A Fazenda com a Betano, enquanto a Band avalia os próximos passos envolvendo acordos relacionados a atrações como Jogo Aberto e Os Donos da Bola.

No entanto, a perda de arrecadação direta, é apenas um dos lados da conta. Dados da Receita Federal citados pelo UOL mostram que as bets renderam R$ 6,42 bilhões aos cofres federais entre janeiro e agosto de 2026, o equivalente a 0,3% de tudo o que o governo arrecadou com impostos e contribuições no período. Em 2025, essa receita havia alcançado R$ 9,16 bilhões.

A saída das plataformas eliminaria essa fonte de recursos, mas parte da perda poderia ser contraposta pelo retorno do dinheiro das apostas ao restante da economia.

Um estudo do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made), da FEA-USP, estima que as bets retiraram entre R$ 120 bilhões e R$ 141 bilhões da atividade econômica em 2025, movimento que teria provocado uma perda de arrecadação entre R$ 31,1 bilhões e R$ 54,8 bilhões pela redução do consumo e da atividade produtiva. Descontados os cerca de R$ 9 bilhões recolhidos diretamente das plataformas naquele ano, o impacto líquido estimado sobre as contas públicas permaneceria negativo entre R$ 22 bilhões e R$ 46 bilhões.

Mas a discussão ganha outro componente quando são considerados os gastos públicos associados às apostas. Um levantamento do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) estima em R$ 30,6 bilhões por ano os danos relacionados à saúde física e mental, enquanto apenas 1% da arrecadação incidente sobre a receita bruta das empresas é destinada à Saúde. Até agosto de 2025, pouco mais de R$ 32 milhões haviam sido repassados à área, segundo informações do Ministério da Fazenda reunidas pelo instituto.

Nesse cenário, o governo também estuda responsabilizar financeiramente as empresas pelos custos provocados pela dependência em jogos. Segundo o ICL Notícias, uma das possibilidades é exigir o ressarcimento ao Sistema Único de Saúde (SUS) pelas despesas com o tratamento desses pacientes. A discussão fiscal em torno da proibição, portanto, não se limita aos impostos que deixariam de ser pagos pelas plataformas: envolve também quanto a presença das bets reduz a arrecadação gerada pelo restante da economia e quais despesas transfere para o poder público.

FUP Explica

A proibição das bets, se confirmada, representa uma das intervenções mais abruptas do governo federal num setor que cresceu rápido e se enraizou em múltiplas cadeias econômicas ao mesmo tempo. O ponto central não é só tirar as plataformas do ar: é lidar com os buracos que elas deixam em pelo menos três frentes simultâneas.

Na frente econômica, o raciocínio do governo é que o dinheiro que hoje vai para as apostas pode voltar ao consumo de bens e serviços, especialmente entre famílias de menor renda. Os números do Centro Internacional Celso Furtado sustentam essa lógica, mas o efeito não é automático: parte da renda liberada pode ir para poupança, para dívidas ou para outras formas de entretenimento, e não necessariamente para o comércio local. Na frente fiscal, a perda de arrecadação tributária é imediata e certa, enquanto o eventual ganho com menor pressão sobre o SUS é difuso e de prazo mais longo. A ideia de exigir ressarcimento das operadoras ao SUS antes de encerrar as atividades é uma tentativa de fechar esse gap, mas depende de como a medida for estruturada juridicamente e de quanto as empresas ainda têm a pagar.

Na frente institucional, a escolha entre medida provisória e projeto de lei em regime de urgência não é detalhe: define se a proibição entra em vigor imediatamente ou passa por um rito no Congresso, onde o setor tem lobbies ativos. Sem período de transição, emissoras e agências ficam expostas a rescisões contratuais em série, o que pode gerar disputas judiciais e pressão política para suavizar a medida. O mercado publicitário, que absorveu cerca de R$ 3 bilhões em investimentos das bets em 2025 segundo o Ibope Advertising Intelligence, não tem substituto imediato para esse volume, e a concentração do impacto em televisão aberta torna o problema politicamente sensível para o governo.