Inflação persistente e mercado de trabalho resistente reforçam perspectiva de aperto monetário nos Estados Unidos, enquanto rendimentos dos títulos do Tesouro avançam e pressionam outras moedas
Pouco mais de uma semana depois de elevar os juros, o Federal Reserve voltou a colocar os mercados em alerta nesta quinta-feira (24). Dirigentes do banco central americano indicaram que novas altas podem ser necessárias para conter a inflação, ainda acima da meta de 2%, enquanto a atividade econômica e o mercado de trabalho permanecem resistentes nos Estados Unidos.
As declarações fortaleceram as expectativas de continuidade do aperto monetário e impulsionaram os rendimentos dos títulos do Tesouro e o dólar, que atingiu o maior nível em dois meses.
O Fed elevou a taxa básica em 0,25 ponto percentual na semana passada, para a faixa de 3,75% a 4% ao ano. Ainda assim, integrantes da instituição avaliam que o movimento pode não ser suficiente para controlar os preços. Segundo a Reuters, a presidente do Federal Reserve da Filadélfia, Anna Paulson, afirmou que levar a inflação de volta a 2% é uma prioridade e sinalizou que um aperto adicional moderado poderá ser necessário caso a economia evolua conforme suas projeções.
A possibilidade de novos aumentos ganhou força com declarações de outros dirigentes. O presidente do Federal Reserve de Nova York, John Williams, considerou razoável a perspectiva de mais uma alta até o fim do ano, em linha com as projeções divulgadas pelo banco central. Após a última decisão monetária, o presidente do Fed, Kevin Warsh, também afirmou que a estabilidade dos preços permanece como foco predominante da instituição, diante de uma inflação que considera elevada há tempo demais.
O cenário é reforçado pela resistência da economia americana. A presidente do Fed de Cleveland, Beth Hammack, afirmou que a atividade segue crescendo em ritmo sólido e que o mercado de trabalho permanece próximo do nível que considera de pleno emprego. Ao mesmo tempo, alertou que as perspectivas para a inflação continuam incertas e com riscos de alta, acrescentando que, quanto mais tempo os preços permanecerem pressionados, mais difícil e custoso poderá ser reconduzi-los à meta.
Os dados divulgados nesta quinta-feira deram novos sinais de estabilidade no emprego. Os pedidos semanais de auxílio-desemprego recuaram em mil, para 197 mil, abaixo dos 201 mil esperados por economistas. Em paralelo, uma nova fonte de pressão surgiu no mercado de energia: o petróleo chegou a subir quase 4% após um ataque com míssil houthi contra a Arábia Saudita reacender receios de interrupções no fornecimento.
A combinação de inflação persistente, atividade econômica resistente e risco de novas pressões sobre a energia alterou as apostas para os próximos passos do Fed. A probabilidade atribuída pelo mercado a uma alta de pelo menos 0,25 ponto percentual na reunião de outubro chegou a 68,6%, ante 55,4% uma semana antes.
A mudança de expectativa rapidamente alcançou os mercados financeiros. O índice que acompanha o dólar diante de uma cesta de moedas avançou para 101,28 pontos, depois de tocar 101,39, maior nível desde 29 de julho. Ao mesmo tempo, os rendimentos dos títulos do Tesouro subiram, com os papéis de 30 anos alcançando o maior patamar desde junho de 2004 e os de dez anos chegando ao nível mais elevado em quase duas décadas.
A pressão não ficou restrita aos Estados Unidos. O euro caiu ao menor nível desde julho, enquanto o dólar ganhou terreno diante da coroa norueguesa, do franco suíço e do iene japonês. Em meio às pressões inflacionárias relacionadas à energia, a Noruega também elevou os juros nesta quinta-feira, enquanto a Suécia sinalizou que poderá seguir o mesmo caminho antes do fim do ano. O movimento reforça um ambiente de política monetária mais restritiva em diferentes economias, com possíveis efeitos sobre moedas, títulos e custos de financiamento.
FUP Explica
O que está em jogo aqui é a velocidade e o teto do ciclo de aperto monetário americano, e isso importa para muito além dos Estados Unidos. Quando dirigentes do Fed, em coro, sinalizam que a taxa pode subir mais, o mercado reajusta suas apostas imediatamente, como mostrou o salto na probabilidade de alta em outubro, de 55,4% para 68,6% em uma semana. Esse reajuste se traduz em dólar mais forte e rendimentos mais altos nos títulos do Tesouro americano, o que encarece o crédito em dólar no mundo inteiro e atrai capital para os Estados Unidos, pressionando moedas de outros países.
No plano econômico, o nó é que os próprios dados que o Fed monitora, emprego sólido e atividade crescendo, são os que justificam continuar apertando. Isso significa que a saída do ciclo restritivo depende de uma desaceleração que ainda não apareceu nos números. O risco adicional do petróleo, com o ataque houthi à Arábia Saudita empurrando o preço para cima, complica ainda mais o quadro: energia cara alimenta inflação e pode forçar o banco central a ir além do que o mercado hoje precifica.
Para economias emergentes e para países que também estão no ciclo de alta, como Noruega e possivelmente Suécia, o efeito é de contágio: manter juros baixos enquanto o Fed aperta significa ver a moeda local enfraquecer e a inflação importada crescer. O ambiente que se desenha é de política monetária restritiva prolongada em várias economias ao mesmo tempo, o que tende a comprimir o crescimento mundial e elevar o custo de financiamento de dívidas públicas e privadas.