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Robôs ganham expressões humanas e transformam a interação entre pessoas e máquinas
Tecnologia por: Bianca Lelis

Imagem: reprodução akwarobo

Robôs ganham expressões humanas e transformam a interação entre pessoas e máquinas

24/09/2026 · 940 palavras

Empresas da China, Rússia e Estados Unidos combinam pele artificial, motores, sensores e inteligência artificial para criar humanoides capazes de conversar, reagir e assumir funções que vão do atendimento ao público a aplicações militares

Olhares que acompanham o interlocutor, sobrancelhas que se movimentam durante uma conversa e rostos capazes de reagir ao que está sendo dito começam a mudar a forma como humanos e máquinas interagem. Da China à Rússia, passando por projetos desenvolvidos no Japão e nos Estados Unidos, empresas e centros de pesquisa estão combinando pele artificial, motores compactos, câmeras, sensores e inteligência artificial para criar robôs humanoides cada vez mais naturais, destinados a funções que incluem atendimento ao público, entretenimento, prestação de serviços e, mais recentemente, aplicações militares.

Entre os projetos que avançam nessa direção está o Origin M1, desenvolvido pela chinesa AheadForm. A cabeça robótica foi projetada para reproduzir movimentos faciais humanos por meio de até 25 pequenos motores brushless, que controlam diferentes regiões do rosto de forma silenciosa. Câmeras instaladas nas pupilas captam o ambiente, enquanto microfones e alto-falantes permitem a comunicação com os usuários.

A empresa também pretende integrar grandes modelos de linguagem e outros sistemas de inteligência artificial ao equipamento, permitindo que as respostas sejam acompanhadas por movimentos e expressões adequados ao contexto da conversa.

O desenvolvimento de rostos mais convincentes, entretanto, representa apenas uma parte do desafio. A comunicação humana combina palavras, pausas, olhares, gestos, entonação e alterações sutis na expressão facial, elementos que precisam ocorrer no momento adequado para que uma interação pareça natural. Em 2025, pesquisadores da Universidade de Osaka haviam programado mais de 40 expressões faciais no robô Erica, mas que mesmo movimentos visualmente precisos podem transmitir artificialidade quando não correspondem ao contexto da conversa.

É nesse ponto que os avanços recentes da inteligência artificial começam a modificar a robótica humanoide. Grandes modelos de linguagem permitem que as máquinas formulem respostas considerando o contexto de uma interação, em vez de depender exclusivamente de frases previamente programadas.

Quando essa capacidade é associada a câmeras, sensores, microfones e sistemas mecânicos responsáveis pelos movimentos do rosto, o robô passa a reunir diferentes elementos necessários para responder verbal e visualmente ao interlocutor.

A tentativa de reproduzir características humanas, porém, antecede a atual geração desses sistemas. Em 2020, a empresa russa Promobot já testava um androide revestido por pele artificial e equipado com músculos mecânicos capazes de movimentar olhos, sobrancelhas e lábios.

O robô conseguia reproduzir mais de 600 expressões faciais e chegou a atuar em um centro de serviços públicos em Perm, na Rússia, onde atendia cidadãos, processava solicitações e utilizava equipamentos para digitalizar documentos. Sua aparência havia sido desenvolvida com base nas características de milhares de mulheres da região.

Os equipamentos eram utilizados como recepcionistas, guias de museus, consultores bancários e atendentes, enquanto a empresa trabalhava em tecnologias destinadas a reproduzir expressões faciais durante a fala.

Também em 2020, a Promobot recebeu 200 milhões de rublos, equivalentes na época a cerca de US$ 2,7 milhões, para investir no desenvolvimento de pele e cabelo artificiais e de sistemas de diálogo baseados em inteligência artificial.

A evolução desses sistemas também começa a levar os humanoides para atividades de maior complexidade. Em 2026, a norte-americana Foundation Future Industries informou ter realizado testes de seus robôs Phantom na Ucrânia. Segundo a Euronews, a companhia desenvolve humanoides destinados a aplicações comerciais e militares e indicou a intenção de avançar para testes relacionados a cenários de combate.

Embora os projetos tenham objetivos distintos, eles compartilham um desafio tecnológico: fazer com que máquinas não apenas executem comandos, mas consigam dividir ambientes e se comunicar de maneira intuitiva com seres humanos. Pele de silicone, músculos artificiais e motores compactos cuidam da aparência e dos movimentos, enquanto sensores captam informações do ambiente e sistemas de inteligência artificial interpretam a interação.

Nesse cenário, o rosto humanoide deixa de funcionar apenas como elemento visual e passa a integrar a própria interface usada pela máquina para conversar, reagir e se relacionar com as pessoas.

FUP Explica

A corrida por robôs humanoides com expressões faciais convincentes não é só uma curiosidade tecnológica: ela sinaliza uma disputa industrial e geopolítica entre China, Rússia e Estados Unidos por liderança num mercado que vai muito além do entretenimento. Quem dominar a combinação de inteligência artificial com hardware humanoide credível terá vantagem em setores como saúde, serviços públicos, varejo e, como o caso da Foundation Future Industries deixa claro, defesa. O uso de robôs Phantom em testes na Ucrânia mostra que o horizonte militar é concreto, não especulativo, e isso tende a acelerar investimentos governamentais e privados nessa direção.

No plano econômico, a trajetória da Promobot ilustra bem o modelo de negócio em formação: a empresa russa já comercializava robôs em 38 países em 2020, atuando como recepcionista, guia de museu e consultor bancário. Isso significa substituição direta de postos de trabalho em funções de atendimento, com impacto social que cresce conforme a tecnologia fica mais barata e acessível. O desafio não é só técnico, é também de aceitação: pesquisadores da Universidade de Osaka já identificaram que expressões visualmente corretas ainda podem soar artificiais quando fora de contexto, o que indica que a barreira para adoção em larga escala ainda existe, mesmo que esteja diminuindo.

Do ponto de vista institucional e jurídico, a ausência de regulação específica para humanoides em funções públicas e militares abre espaço para questionamentos sobre responsabilidade em caso de erro, sobre privacidade (câmeras nas pupilas captando o ambiente em tempo real) e sobre os limites do uso em contextos de combate. Esses debates ainda não têm resposta consolidada em nenhum dos países mencionados, e a velocidade do desenvolvimento tecnológico tende a deixar a regulação sempre alguns passos atrás.