← Voltar
Xi Jinping anuncia programa para levar 100 mil jovens americanos à China
Geopolítica

Imagem: x | Eric Daugherty

Xi Jinping anuncia programa para levar 100 mil jovens americanos à China

24/09/2026 · 1105 palavras

Nova iniciativa prevê intercâmbios e períodos de estudo nos próximos cinco anos, enquanto projetos acadêmicos também aproximam estudantes brasileiros de universidades chinesas

Durante uma visita de Estado aos Estados Unidos nesta quinta-feira (24), o presidente da China, Xi Jinping, anunciou, na Casa Branca, um novo programa para receber 100 mil jovens americanos em intercâmbios e períodos de estudo na China ao longo dos próximos cinco anos. Apresentada durante a recepção oferecida pelo presidente Donald Trump, em Washington, a iniciativa busca estreitar os contatos entre as sociedades dos dois países em um momento de disputas comerciais e tecnológicas.

Segundo discurso divulgado pela Embaixada da China nos Estados Unidos, Xi afirmou que a esperança para a relação bilateral está nos povos das duas nações e que seu futuro depende dos jovens.

O anúncio dá continuidade a uma iniciativa lançada pelo governo chinês em novembro de 2023, quando Xi estabeleceu a meta de receber 50 mil jovens americanos em cinco anos. O objetivo foi atingido cerca de dois anos e meio antes do prazo. Em maio de 2026, o Ministério das Relações Exteriores da China informou que mais de 50 mil jovens dos Estados Unidos já haviam participado de visitas e programas no país desde a apresentação da proposta.

A aposta nos intercâmbios ocorre enquanto Pequim e Washington administram divergências em áreas consideradas estratégicas. Durante o encontro na Casa Branca, Xi defendeu que a competição entre as duas potências permaneça dentro de limites e afirmou que China e Estados Unidos têm mais a ganhar com a cooperação do que com o confronto. A visita também envolveu discussões sobre comércio, inteligência artificial, segurança e Taiwan.

Poucos dias antes de chegar a Washington, Xi já havia destacado o papel dos intercâmbios ao responder a uma carta enviada por estudantes de dez universidades americanas que participaram de programas recentes na China. Na mensagem, o presidente incentivou os jovens a contribuir para o entendimento entre as duas sociedades, inserindo a mobilidade estudantil entre os instrumentos utilizados por Pequim para fortalecer os contatos diretos entre cidadãos dos dois países.

#Brasil também avança em intercâmbios com a China#

Embora o novo programa seja destinado aos Estados Unidos, iniciativas acadêmicas também vêm aproximando Brasil e China. Em 2026, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) lançou o Programa Brasil-China de Líderes em Inovação Científica e Tecnológica, em parceria com a Universidade de Beihang. Segundo a Exame, a iniciativa prevê levar até 160 pós-graduandos e 24 docentes brasileiros à China para atividades de mobilidade acadêmica de curta duração, com foco na formação conjunta em ciência e tecnologia.

Na graduação, a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) aprovou a criação do curso superior de Tecnologia em Secretariado: Português/Chinês, que começará a receber estudantes em 2027. Desenvolvido pela Faculdade de Letras, pelo Instituto Confúcio da UFMG e pela Huazhong University of Science and Technology (Hust), de Wuhan, o curso terá cinco semestres e prevê que o último período seja realizado presencialmente na China. De acordo com a UFMG, as despesas dessa etapa serão custeadas pela universidade chinesa.

O Guia do Estudante informa que o apoio previsto para o período na China inclui passagens aéreas, moradia e ajuda de custo para alimentação. Para participar da etapa internacional, no entanto, o estudante deverá alcançar o nível 4 do HSK, exame oficial de proficiência em mandarim. A graduação terá duas turmas anuais de 20 alunos e processo seletivo próprio, que utilizará as notas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).

Em Minas Gerais, a mobilidade acadêmica internacional também entrou na pauta legislativa. A proposta original do Programa Estadual de Intercâmbio Tecnológico China-Minas previa enviar anualmente à China até 10% dos estudantes de engenharia da Universidade do Estado de Minas Gerais (Uemg) e da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes). Os participantes poderiam permanecer entre seis e 24 meses no país em atividades de intercâmbio, estágio ou pesquisa tecnológica, segundo a Assembleia Legislativa de Minas Gerais.

Durante a tramitação, entretanto, a proposta passou por mudanças. A Comissão de Educação, Ciência e Tecnologia apresentou um substitutivo que deixou de restringir as oportunidades à China e passou a tratar de mecanismos de incentivo à internacionalização das instituições estaduais de ciência, tecnologia e inovação. Dessa forma, o texto em discussão permite acordos com instituições estrangeiras de diferentes países para atividades de pesquisa, inovação e mobilidade de pesquisadores.

Os projetos brasileiros têm formatos e escalas diferentes do programa anunciado por Xi Jinping aos Estados Unidos, mas fazem parte de um movimento de aproximação acadêmica com instituições chinesas. Enquanto Pequim estabelece uma meta de 100 mil participantes americanos nos próximos cinco anos, iniciativas no Brasil avançam por meio de programas de pós-graduação, novos cursos universitários e propostas de mobilidade voltadas à formação científica e tecnológica.

FUP Explica

O anúncio de Xi Jinping tem peso político claro: ao propor um programa de intercâmbio de grande escala justamente durante uma visita à Casa Branca, a China sinaliza que aposta na aproximação entre pessoas como ferramenta de influência de longo prazo, especialmente num momento em que as relações comerciais e tecnológicas entre os dois países seguem tensas. A lógica é simples: jovens americanos que estudam na China tendem a construir uma visão mais matizada do país, o que pode, ao longo do tempo, moderar pressões políticas internas nos Estados Unidos por medidas mais duras contra Pequim. O fato de a meta anterior, de 50 mil participantes, ter sido cumprida dois anos e meio antes do prazo reforça a credibilidade da iniciativa e dá a Xi um argumento concreto para apresentar ao governo Trump.

Do ponto de vista econômico e institucional, o movimento chinês contrasta com o endurecimento das restrições a estudantes e pesquisadores chineses nos Estados Unidos nos últimos anos. Pequim inverte a lógica: em vez de reagir ao fechamento americano, abre as próprias portas e coloca o ônus da reciprocidade do outro lado. Para universidades e institutos de pesquisa americanos, isso pode representar tanto uma oportunidade de acesso quanto um dilema, dado o ambiente político interno nos EUA em relação à cooperação acadêmica com a China.

No caso brasileiro, as iniciativas descritas no texto, como o programa da Capes com a Universidade de Beihang e o curso da UFMG com a Hust, mostram que o movimento de aproximação acadêmica com a China não é exclusivo dos Estados Unidos. A escala é muito menor, mas a direção é semelhante: formação conjunta em ciência e tecnologia, com parte do percurso realizada em solo chinês. A mudança no projeto mineiro, que ampliou o escopo para além da China, é um sinal de que o debate sobre internacionalização no Brasil ainda está em aberto e pode tomar rumos diferentes dependendo do contexto político.