Imagine um comitê de matemáticos reunido por meses para selecionar os problemas mais difíceis da área e oferecer um prêmio de US$ 1 milhão para cada solução. Foi exatamente o que aconteceu em 24 de maio de 2000, no Collège de France, em Paris, quando os sete Problemas do Milênio foram apresentados ao mundo.
É claro que, na época, eles ainda não conheciam a base de cálculo do ICMS, e por isso ela acabou ficando de fora.
Passados 26 anos, apenas um desses enigmas foi solucionado: a Conjectura de Poincaré, desvendada pelo russo Grigori Perelman, que recusou a premiação em dinheiro. Essa história, porém, pode ganhar um novo capítulo. A OpenAI, criadora do ChatGPT, afirma ter solucionado um dos seis desafios restantes: o problema da existência e suavidade das equações de Navier-Stokes, formulado há mais de 200 anos.
A notícia, contudo, não veio sem polêmica. Cerca de 12 horas antes, o matemático Tristan Buckmaster, da Universidade de Nova York, e o pesquisador Levent Alpöge, da Anthropic, haviam publicado a solução de equações correlatas, como as de Euler, abrindo caminho para a resposta definitiva.
A dupla avançou nas pesquisas com o apoio de ferramentas de inteligência artificial, entre elas o Codex, da própria OpenAI. Esse detalhe colocou a empresa no centro da controvérsia. Embora a OpenAI negue acesso prévio ao material antes da divulgação pública, admitiu não poder descartar que os dados gerados pelo uso dos pesquisadores tenham alimentado o treinamento do modelo que decifrou a equação completa.
Em outras palavras, ao recorrerem aos sistemas da OpenAI, os cientistas podem ter fornecido, involuntariamente, o atalho para que a máquina chegasse à resposta antes deles.
O modelo de IA levou cerca de 88 horas de processamento contínuo para encontrar a demonstração matemática, além de outras 17 horas para formalizá-la na linguagem computacional Lean. A OpenAI não divulgou os custos operacionais, mas estimativas de especialistas apontam que o consumo de poder computacional oscilou entre US$ 15 milhões e US$ 22 milhões.
O anúncio ainda precisa passar por análise da comunidade científica internacional, inclusive com relação à originalidade e ao ineditismo da prova, antes de qualquer homologação oficial pelo Instituto Clay de Matemática.
FUP Explica
O que está em jogo aqui vai muito além de uma equação difícil. Se a prova resistir ao escrutínio da comunidade científica, será a primeira vez que uma inteligência artificial resolve um dos problemas matemáticos mais importantes da história, o que muda a percepção sobre o papel dessas ferramentas na fronteira do conhecimento. Não é mais assistente de pesquisa: é coautor, ou talvez protagonista.
A controvérsia sobre a origem da solução é o ponto mais delicado. A possibilidade de que os próprios pesquisadores humanos, ao usarem o Codex da OpenAI, tenham alimentado involuntariamente o modelo que os ultrapassou levanta uma questão de propriedade intelectual sem resposta clara ainda: de quem é a descoberta? Isso tende a pressionar o Instituto Clay de Matemática a definir critérios que hoje simplesmente não existem para premiar soluções geradas por IA, e pode abrir espaço para disputas jurídicas sobre autoria científica.
No plano econômico, o custo estimado entre US$ 15 milhões e US$ 22 milhões para processar a solução mostra que esse tipo de capacidade computacional está concentrado em pouquíssimas empresas no mundo. Isso reforça a assimetria entre quem tem acesso a esses modelos e quem não tem, com impacto direto sobre universidades e centros de pesquisa com menos recursos. A curto prazo, o debate vai se intensificar sobre como a ciência deve se relacionar com ferramentas privadas de IA quando os dados dos próprios pesquisadores podem ser usados para treinar os modelos que competem com eles.