Brent chegou à mínima desde 8 de setembro antes de voltar a superar US$ 101 por barril; prêmio do diesel europeu atingiu recorde em meio à oferta restrita no mercado internacional e ao risco de limitações às exportações dos EUA
O mercado de energia apresentou movimentos distintos nesta semana, com o petróleo pressionado inicialmente pela perspectiva de maior oferta no Golfo e por sinais de negociação entre Estados Unidos e Irã, enquanto o diesel continuou avançando diante da escassez no mercado internacional. Na terça-feira (22), o Brent chegou a US$ 97,36 por barril, menor nível desde 8 de setembro, e o West Texas Intermediate (WTI) também atingiu nesta quarta-feira (23) sua menor cotação desde o início do mês.
Ao longo do pregão, porém, o petróleo reverteu parte das perdas após novas declarações de Teerã aumentarem a incerteza sobre o conflito e a reabertura do Estreito de Hormuz.
O Brent passou a subir 1,85%, para US$ 101,09 por barril, enquanto o WTI avançava 0,76%, para US$ 91,21, após o presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, afirmar na Assembleia Geral das Nações Unidas que seu país não irá se render aos Estados Unidos. A declaração ocorreu um dia depois de Donald Trump ameaçar o Irã. Apesar do tom mais duro, Pezeshkian também afirmou que Teerã continua acreditando em uma solução diplomática.
A possibilidade de negociação vinha contribuindo para a queda do petróleo antes dessa recuperação. Uma autoridade iraniana afirmou que Teerã estava analisando uma resposta dos Estados Unidos a uma proposta para encerrar as hostilidades e que as conversas indiretas incluíram a retirada do bloqueio norte-americano sobre portos iranianos e a reabertura do Estreito de Ormuz.
No entanto, o chefe de segurança do Irã, Mohsen Rezaei, afirmou que a passagem continuará fechada enquanto as condições iranianas não forem atendidas.
Outro fator que pressionava as cotações para baixo era a expectativa de aumento da oferta na região. A Arábia Saudita retomou na terça-feira as operações do oleoduto East-West, que transporta petróleo até o Mar Vermelho. A estrutura havia sido interrompida após ataques de drones em 11 de setembro, que também suspenderam carregamentos no porto de Yanbu. Além disso, os sauditas ofereceram mais barris a refinarias asiáticas por pontos de embarque localizados fora de Ormuz.
Enquanto o petróleo alternava entre queda e recuperação, a pressão sobre o diesel era mais acentuada. O prêmio do gasóleo europeu com baixo teor de enxofre sobre o Brent chegou a aproximadamente US$ 95 por barril, um recorde, em meio à oferta restrita no mercado internacional. O movimento ganhou força depois que Trump sinalizou apoio à possibilidade de restringir as exportações norte-americanas de diesel na tentativa de reduzir os preços internos.
A hipótese, porém, enfrentou resistência dentro do próprio governo norte-americano. O secretário de Energia dos Estados Unidos, Chris Wright, afirmou que uma proibição das exportações não funcionaria, enquanto analistas ouvidos pela Reuters alertaram que uma medida desse tipo poderia reduzir ainda mais a oferta internacional e aumentar a pressão sobre outras economias.
A Europa vem dependendo das importações de diesel e combustível de aviação dos Estados Unidos durante o conflito envolvendo forças norte-americanas e israelenses e o Irã.
Nos Estados Unidos, os estoques de petróleo bruto aumentaram em 3 milhões de barris na semana encerrada em 18 de setembro, para 426,4 milhões, contrariando a expectativa de queda de 641 mil barris. Os estoques de combustíveis, entretanto, diminuíram, reforçando a diferença entre a disponibilidade de petróleo bruto e a oferta mais restrita de derivados.
O cenário, portanto, não é de alta uniforme no mercado de energia. O petróleo vinha cedendo diante da perspectiva de maior oferta e das expectativas de avanço diplomático, mas recuperou terreno com a nova escalada verbal entre Washington e Teerã. Já o diesel permanece sob pressão mais consistente, sustentado pela oferta restrita de derivados e pela possibilidade de novas limitações comerciais, mantendo o mercado atento tanto à situação em Ormuz quanto às decisões dos Estados Unidos sobre suas exportações.
FUP Explica
O que esta semana mostrou é que diesel e petróleo estão respondendo a lógicas diferentes, e isso complica qualquer leitura simples do mercado de energia. O petróleo bruto oscilou porque dois fatores opostos puxaram ao mesmo tempo: de um lado, a reabertura parcial da oferta saudita e os sinais de negociação entre Washington e Teerã aliviaram a pressão; de outro, a retórica dura do presidente iraniano na ONU lembrou que o Estreito de Hormuz continua fechado e que qualquer acordo ainda é incerto. O resultado foi volatilidade, não tendência.
O diesel conta outra história. O prêmio recorde sobre o Brent reflete escassez real de derivados, não apenas tensão geopolítica. A Europa depende das exportações norte-americanas de diesel e combustível de aviação justamente porque o conflito cortou outras rotas de abastecimento. Se os Estados Unidos restringirem essas exportações para conter os preços domésticos, o efeito colateral imediato seria aperto ainda maior no mercado europeu, o que tende a elevar custos de transporte e de produção industrial no continente. O próprio secretário de Energia americano reconheceu que a medida não funcionaria, mas o fato de estar sendo discutida já é suficiente para manter o mercado em alerta.
No fundo, o nó é que a solução para o diesel passa pelo Estreito de Hormuz, e o Estreito de Hormuz só reabre se houver acordo diplomático entre Washington e Teerã. Enquanto esse acordo não se concretiza, os estoques de derivados seguem apertados, os prêmios permanecem elevados e qualquer declaração de um lado ou do outro move o mercado. Quem depende de combustível para operar, seja no transporte, na indústria ou na aviação, fica refém dessa equação.