Ataques contra embarcações e infraestruturas de transporte de petróleo aumentaram as tensões no Mar Vermelho e no Estreito de Ormuz em 2026, afetando duas das principais rotas marítimas para o comércio de energia. Em setembro, o tráfego de navios comerciais pelo Estreito de Ormuz caiu para menos de dez embarcações por dia durante um fim de semana, enquanto uma reunião entre Irã e países árabes do Golfo para discutir as rotas marítimas foi adiada, segundo a Reuters.

A escalada ocorre após meses de ataques e ameaças à navegação na região. Em julho, os Houthis, grupo iemenita apoiado pelo Irã, reivindicaram ataques contra dois petroleiros sauditas no Mar Vermelho, segundo a RTP.

Em 14 de setembro, dados preliminares de rastreamento mostraram que o número de embarcações comerciais que atravessaram o Estreito de Ormuz havia caído para menos de dez por dia durante o fim de semana anterior. Nos dez dias anteriores, a média havia sido de 14 travessias diárias.

Os números não consideravam possíveis embarcações que atravessaram a região com os transponders dos Sistemas de Identificação Automática (AIS) desligados para evitar detecção.

A UKMTO, agência britânica de segurança marítima, também informou que uma embarcação havia sido atingida por um projétil enquanto atravessava o Estreito de Ormuz, provocando um incêndio e levando à retirada da tripulação. O Irã, por sua vez, afirmou que uma pessoa morreu e quatro tripulantes ficaram feridos depois que uma embarcação comercial iraniana foi atingida na costa do país.

Em meio às restrições ao transporte e aos ataques na região, os preços do petróleo subiram mais de 3% em 14 de setembro. O movimento ocorreu após ataques dos Houthis contra a Arábia Saudita, um ataque separado que levou ao fechamento do principal oleoduto saudita Leste-Oeste durante o fim de semana e ataques contra embarcações no Golfo.

As tentativas diplomáticas para reduzir as tensões também enfrentaram dificuldades. Uma reunião regional entre o Irã e países árabes do Golfo, prevista para 14 de setembro, foi adiada. O ministro das Relações Exteriores de Omã, Sayyid Badr Albusaidi, informou que o encontro havia sido adiado “no interesse do consenso”.

Autoridades iranianas haviam informado que participariam da reunião para apresentar um acordo com Omã sobre a gestão das rotas marítimas pelo Estreito de Ormuz.

A agência iraniana Fars, ouviu um funcionário do Ministério das Relações Exteriores do Irã que atribuiu o adiamento a um pedido de alguns países da região. Segundo ele, a decisão foi tomada conjuntamente por Teerã e Mascate, e o Irã coordenaria com Omã a definição de uma nova data.

A reportagem também informa que o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araqchi, afirmou ao veículo Al-Arabi Al-Jadeed que o país não reabriria o Estreito de Ormuz até que os Estados Unidos atendessem às exigências de Teerã.

FUP Explica

A combinação de ataques simultâneos no Mar Vermelho e no Estreito de Ormuz representa um nível de pressão sobre as rotas marítimas que não tem precedente recente nesse conflito. O Estreito de Ormuz, por onde passava cerca de um quinto do petróleo mundial, operou com menos de dez travessias comerciais por dia no fim de semana anterior ao encontro diplomático, o que já se reflete nos preços do petróleo, com alta superior a 3% registrada em 14 de setembro. Esse tipo de choque de oferta, quando sustentado, tende a se propagar para frete, seguros marítimos e, em cadeia, para o custo de produtos que dependem dessas rotas.

Do ponto de vista político, a reunião em Omã sinaliza que os EUA mantêm canais abertos com os Houthis mesmo enquanto bombardeiam o Irã pelo 12º dia consecutivo, o que revela uma estratégia de pressão militar combinada com tentativa de negociação paralela. O problema é que o adiamento da reunião regional sobre o Estreito de Ormuz, que envolveria Irã e países do Golfo, reduz as chances de avanço diplomático mais amplo no curto prazo. Sem um acordo que inclua Teerã, qualquer entendimento parcial com os Houthis tende a ter alcance limitado, já que o grupo opera com apoio iraniano.

Para o comércio marítimo, o risco imediato é a consolidação de um padrão de evitação das duas rotas ao mesmo tempo, o que não deixa alternativa simples: contornar o Cabo da Boa Esperança aumenta o tempo e o custo de viagem de forma significativa, e o Mediterrâneo via Canal de Suez depende justamente do Mar Vermelho estar transitável. Enquanto o conflito não tiver desfecho diplomático concreto, armadores, seguradoras e operadores de logística tendem a manter postura conservadora, com impacto direto sobre prazos e custos de transporte internacional.

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