Prazo adicional abre espaço para negociar um acordo mais abrangente, mas compras agrícolas e entregas de terras raras seguem como pontos de atrito.

Às vésperas do encontro entre Donald Trump e Xi Jinping em Washington, Estados Unidos e China concordaram, na quarta-feira (23), em estender até 10 de janeiro de 2027 a trégua comercial que terminaria em novembro. O secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, anunciou a decisão após se reunir com o vice-premiê chinês, He Lifeng, para preparar a conversa entre os presidentes, marcada para quinta-feira (24). Os dois meses adicionais darão aos governos tempo para tentar negociar um acordo mais abrangente.

Segundo Bessent, Pequim levantou a possibilidade de um pacto maior durante 12 horas de conversas no domingo (20). Os dois representantes voltaram a se reunir por cerca de 90 minutos na quarta-feira, mas o secretário afirmou que ainda não sabe se será possível concluir a negociação até janeiro.

A prorrogação mantém em vigor o entendimento que reduziu tarifas bilaterais após uma sequência de medidas de retaliação entre os países.

O encontro entre Trump e Xi pode trazer anúncios sobre a retirada de tarifas incidentes sobre US$ 30 bilhões em produtos considerados não críticos, além de avanços em serviços financeiros e compras agrícolas, disse Bessent. Essas possibilidades ainda não representam acordos concluídos. Segundo o secretário, Washington também cobra que Pequim cumpra de forma mais completa os compromissos já assumidos.

A China está atendendo à exigência de comprar 25 milhões de toneladas de soja americana, afirmou Bessent, mas avança mais lentamente na aquisição de outros US$ 17 bilhões em produtos agrícolas. Autoridades dos Estados Unidos também apontaram atrasos nas entregas chinesas de terras raras. O fornecimento desses minerais e de ímãs produzidos a partir deles havia sido restringido pela China antes da trégua.

As reuniões preparatórias trataram ainda de inteligência artificial. Bessent afirmou que os países concordaram em criar um canal para comunicar incidentes de segurança relacionados à tecnologia. A confirmação pública chinesa, contudo, limitou-se a registrar que o assunto foi discutido. A diferença entre as declarações mostra que o alcance dessa possível cooperação ainda não está claro.

Taiwan também pode entrar na conversa entre os presidentes. Autoridades e analistas na Ásia receiam que o apoio americano à ilha se torne parte da negociação, enquanto Washington busca resultados comerciais antes das eleições legislativas de novembro. A questão é sensível para Pequim, que reivindica Taiwan, e para parceiros dos Estados Unidos na região, atentos a qualquer mudança na posição americana.

Xi chega à cúpula com as exportações chinesas em alta, apesar da demanda interna fraca e da crise prolongada no setor imobiliário. O superávit comercial do país caminha para ultrapassar US$ 1 trilhão pelo segundo ano consecutivo. Mesmo com as restrições americanas a pequenas encomendas usadas por varejistas digitais, mais da metade das cerca de 6.500 categorias de produtos vendidos pela China aos Estados Unidos neste ano cresceu em relação a 2025.

Esse desempenho ajuda a explicar por que analistas veem pouco incentivo para concessões rápidas de Pequim. Do lado americano, a prorrogação evita que a trégua expire enquanto os governos ainda discutem compras agrícolas, tarifas e acesso a minerais críticos. O resultado imediato da cúpula, portanto, pode ser a continuidade das negociações, sem que os dois países anunciem um acordo comercial de maior alcance.

FUP Explica

A extensão da trégua comercial entre EUA e China até janeiro compra tempo, mas não resolve nada: os dois lados ainda discutem o cumprimento dos compromissos já assumidos, com atrasos chineses em compras agrícolas e em entregas de terras raras. Isso significa que qualquer acordo mais amplo que venha da cúpula Trump-Xi parte de uma base frágil, e o prazo de dois meses é curto para fechar um pacto da magnitude que a China sinalizou querer.

Para o Brasil, o ponto de atenção imediato é a soja: a China está comprando os 25 milhões de toneladas exigidos, o que sustenta a demanda pelo produto brasileiro no mercado mundial, mas o ritmo lento nas demais compras agrícolas indica que a pressão sobre os exportadores americanos pode se intensificar, com reflexos indiretos na competição com o agro brasileiro.

A possível proibição de exportações de diesel pelos EUA é o risco mais concreto e imediato para o Brasil no curto prazo. O país figura entre os principais compradores do combustível americano, e o mercado mundial já está apertado por causa da guerra no Oriente Médio e da suspensão das exportações russas. Se a medida sair do papel, o Brasil teria de buscar outras fontes num mercado com oferta reduzida, o que tende a elevar custos de transporte, logística e produção agrícola, setores que dependem intensamente do diesel. O efeito cascata pode chegar ao consumidor final via frete e preço de alimentos.

No plano político, a inclusão de Taiwan na pauta da cúpula é o elemento mais imprevisível. Se Washington usar o apoio à ilha como moeda de troca em negociações comerciais, isso pode tanto acelerar concessões chinesas quanto provocar reação brusca de Pequim, colocando em risco a própria trégua que acaba de ser renovada. O resultado da reunião de quinta-feira (24) vai definir se os dois meses extras serão usados para avançar ou apenas para adiar uma decisão mais difícil.

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