Possível medida de Washington surge em meio à oferta internacional reduzida e à disparada dos fretes marítimos, cenário que pode obrigar importadores brasileiros a buscar fornecedores mais distantes

A possibilidade de os Estados Unidos restringirem as exportações de diesel coloca uma nova pressão sobre o abastecimento brasileiro em um momento de oferta internacional reduzida e fretes marítimos em níveis recordes. Apoiada pelo presidente Donald Trump como uma alternativa para tentar conter os preços domésticos, a medida pode afetar diretamente o Brasil, um dos principais destinos do combustível norte-americano, enquanto conflitos no Oriente Médio e limitações às vendas russas diminuem a disponibilidade do produto, alongam rotas de navegação e elevam os custos logísticos.

Os Estados Unidos ganharam ainda mais importância no fornecimento internacional de diesel ao longo de 2026. Em agosto, o país exportou o recorde de 1,6 milhão de barris por dia, ante cerca de 1 milhão em fevereiro, antes do início da guerra com o Irã. Brasil, Chile, México, Peru, Marrocos, França e Reino Unido estão entre os principais compradores, segundo dados da Kpler citados pela Reuters. Uma eventual restrição, portanto, retiraria parte da oferta de um mercado no qual diferentes países já disputam volumes menores do combustível.

Para o Brasil, o impacto potencial não se limita à disponibilidade do diesel norte-americano. Caso Washington reduza suas vendas externas, importadores brasileiros podem precisar disputar cargas com compradores da América Latina, Europa, África e Ásia ou recorrer a fornecedores mais distantes.

Esse movimento ocorreria justamente quando o transporte marítimo de petróleo e derivados enfrenta menor disponibilidade de navios e custos elevados em razão das dificuldades de navegação no Oriente Médio.

A discussão em Washington ganhou força depois que o preço médio do diesel nos Estados Unidos atingiu o recorde de US$ 6,5107 por galão. A alta reflete uma combinação de problemas na oferta, entre eles ataques ucranianos contra refinarias russas, danos em instalações do Oriente Médio provocados pela guerra entre Estados Unidos e Irã e baixos níveis de estoques. A Rússia, segundo maior exportador mundial, proibiu as vendas externas de diesel em julho, inicialmente até pelo menos o fim de setembro, enquanto o conflito no Oriente Médio também prejudicou embarques pelo Estreito de Ormuz e pelo Mar Vermelho.

Nesse ambiente, uma redução das exportações norte-americanas tende a intensificar a disputa entre importadores. Analistas avaliam que mesmo uma restrição parcial pode provocar escassez em algumas regiões. Países asiáticos teriam condições de responder com maiores volumes, sobretudo por meio da Índia, mas o crescimento dos embarques chineses em julho e agosto não foi suficiente para aliviar a pressão sobre os preços.

Ao mesmo tempo, as dificuldades de navegação no Oriente Médio já pressionam o custo de movimentação das cargas. Restrições no Estreito de Ormuz e em Bab Al Mandeb obrigaram petroleiros a percorrer trajetos mais longos e recorrer a operações de transferência de carga entre navios. A alta do combustível marítimo e a cobrança de prêmios adicionais de risco de guerra também encareceram as viagens.

Segundo o The National, os ganhos médios no mercado spot dos Very Large Crude Carriers (VLCCs), grandes petroleiros utilizados no transporte de petróleo, subiram 40% em uma semana e chegaram a quase US$ 642 mil por dia. Em algumas rotas, os valores são ainda maiores: viagens entre Omã e Coreia do Sul passaram a render cerca de US$ 845 mil por dia, enquanto o frete entre o Golfo dos Estados Unidos e a China alcançou aproximadamente US$ 50 milhões por viagem, equivalente a US$ 25 por barril.

Parte dessa escalada decorre da menor disponibilidade de embarcações. Cerca de 15% da frota mundial de VLCCs está atualmente no Golfo de Omã, ante 10% no início de julho, à medida que navios aguardam operações de transferência de carga. A concentração reduz o número de petroleiros disponíveis em outras regiões e contribui para manter os fretes elevados, mesmo diante da recuperação parcial dos fluxos de petróleo.

Para importadores brasileiros, a combinação de menor oferta de diesel e transporte marítimo mais caro cria duas frentes de pressão. Se os Estados Unidos limitarem as exportações, o país poderá enfrentar maior competição por cargas e custos superiores para recorrer a fornecedores alternativos. Os efeitos podem alcançar outros setores da economia, uma vez que o diesel tem peso relevante no transporte rodoviário de cargas e no funcionamento de máquinas agrícolas e equipamentos utilizados na produção e circulação de mercadorias.

A eventual restrição, contudo, também desperta dúvidas sobre seus efeitos dentro dos próprios Estados Unidos. Analistas ouvidos pela Reuters afirmam que limitar as exportações pode gerar excesso de diesel no mercado doméstico e levar refinarias norte-americanas a reduzir o processamento de petróleo, diminuindo, como consequência, a produção de gasolina e outros derivados. Assim, uma medida destinada a aliviar os preços internos pode criar novos desequilíbrios no mercado de combustíveis e transmitir seus efeitos para as cadeias internacionais de abastecimento.

FUP Explica

O ponto central aqui é que o Brasil importa diesel dos EUA de forma relevante, e qualquer restrição norte-americana não chega sozinha: ela vem num momento em que a oferta mundial do produto encolheu por vários lados ao mesmo tempo. A Rússia suspendeu as exportações, o Oriente Médio está em conflito e os fretes marítimos dispararam. Ou seja, o Brasil não teria para onde se virar facilmente sem pagar mais caro.

No plano econômico, o diesel é um insumo transversal: move caminhões, colheitadeiras, geradores e equipamentos de construção. Uma alta no custo de importação tende a se espalhar pelo preço do frete rodoviário interno e, por consequência, pelo custo de praticamente tudo que circula no país, de alimentos a insumos industriais. Para o agronegócio, que depende do diesel tanto na colheita quanto no escoamento da produção, o impacto pode ser sentido diretamente na margem das safras.

No plano político, a medida ainda não foi tomada, e o próprio debate em Washington já sinaliza tensão entre o interesse doméstico norte-americano e os compromissos comerciais com parceiros como o Brasil. Se a restrição for implementada, o governo brasileiro pode precisar acionar reservas estratégicas, negociar com outros fornecedores em condições desfavoráveis ou aceitar preços mais altos no mercado spot, o que coloca pressão adicional sobre a política de preços de combustíveis e sobre a Petrobras. A incerteza sobre o desfecho, por si só, tende a gerar precaução nos importadores e pode antecipar movimentos de compra que pressionam ainda mais os fretes.

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