Queda dos rios já mobiliza empresas e entidades do setor produtivo para evitar interrupções no abastecimento do Polo Industrial, enquanto queimadas e fumaça agravam os efeitos da estiagem sobre a população
A intensificação do El Niño começa a produzir efeitos concretos no Amazonas neste mês de setembro, onde a combinação de estiagem, queda do nível dos rios e avanço das queimadas já afeta a população e coloca a logística do Polo Industrial de Manaus (PIM) em alerta. Enquanto a fumaça aumenta a procura por atendimento médico na capital, empresas e entidades do setor produtivo antecipam operações e deslocam estruturas portuárias para manter a navegação e evitar que as restrições nos rios interrompam a chegada de insumos e o escoamento de mercadorias da Zona Franca de Manaus.
O cenário tende a permanecer sob pressão nos próximos meses. Em boletim divulgado em setembro, a NOAA informou que o El Niño continua ganhando força no Pacífico e apontou probabilidade superior a 90% de que o episódio se torne muito forte durante o outono e o inverno de 2026-2027 no Hemisfério Norte.
As anomalias da temperatura da superfície do mar já superavam 3°C em áreas do Pacífico Equatorial Oriental. No Brasil, o Cemaden também alertou para a alta probabilidade de um El Niño muito forte e para a necessidade de acompanhamento contínuo das condições meteorológicas e hidrológicas.
No Amazonas, um dos principais reflexos está na redução do nível dos rios, justamente a infraestrutura natural que sustenta parte importante da circulação de cargas no estado.
Segundo o Serviço Geológico do Brasil (SGB), Manaus pode enfrentar uma das estiagens mais severas já observadas caso a descida do rio Negro siga padrões registrados em anos críticos. No cenário mais extremo analisado pelo órgão, a cota pode ficar abaixo de 13 metros em 31 de outubro. Se a vazante repetir o comportamento de 2023, a projeção é de 13,37 metros; caso siga o padrão de 2024, pode chegar a 16,32 metros. Os dois níveis são considerados baixos para a região.
A redução da profundidade dos rios pode restringir a navegação e obrigar empresas a adaptar as operações, com transbordos e outras soluções para manter o fluxo de mercadorias.
O impacto também pode chegar aos custos do transporte. Em setembro, a Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq) reforçou a fiscalização sobre a chamada taxa de seca, ou Low Water Surcharge, cobrada por companhias de navegação diante de restrições hidrológicas na Amazônia. Pela nova sistemática, a cobrança depende de homologação da agência e da comprovação dos custos extraordinários apresentados pelas empresas.
A preocupação com possíveis gargalos já levou o Grupo Chibatão a antecipar uma operação para preservar o abastecimento do Polo Industrial. Em 17 de setembro, a empresa iniciou o deslocamento de um píer flutuante de Manaus para Itacoatiara, a cerca de 270 quilômetros por via fluvial. Segundo o Centro da Indústria do Estado do Amazonas (CIEAM), a estrutura será utilizada como alternativa de transbordo durante o período crítico da vazante, ajudando a manter as operações de cabotagem e longo curso e a circulação de insumos e mercadorias destinados à indústria e ao comércio.
A operação incorpora aprendizados das secas anteriores. Segundo Jhonny Fidelis, diretor-executivo geral do Grupo Chibatão, um navio que demandava cerca de 40 horas para o processo de alívio de carga em 2024 está planejado para realizar essa etapa em 28 horas neste ano, enquanto a operação completa é estimada em 48 horas. A redução do tempo busca aumentar a capacidade operacional justamente quando as limitações de calado podem dificultar a chegada das embarcações até Manaus.
Para o Polo Industrial, na Zona Franca de Manaus, a preocupação central é impedir que a crise hidrológica se transforme em interrupção das linhas de produção.
A dependência do transporte fluvial torna a indústria amazonense particularmente exposta à redução da navegabilidade: dificuldades na chegada de componentes e matérias-primas podem provocar atrasos, elevar custos logísticos e exigir mudanças no planejamento de estoques e embarques. Da mesma forma, restrições na saída de cargas podem afetar a distribuição dos produtos fabricados em Manaus para outros mercados.
Os efeitos da estiagem, porém, não estão restritos à indústria. A fumaça acumulada sobre Manaus também começa a pressionar o sistema de saúde. Segundo a CNN Brasil, a capital registrou aumento de 15,8% nas ocorrências respiratórias em meio a dias de qualidade do ar entre ruim e péssima. Crianças, idosos e gestantes estão entre os grupos que mais procuram atendimento, enquanto também foram relatados casos de irritação nos olhos, problemas na garganta e sintomas de febre.
Diante da estiagem e das condições climáticas adversas, o governo amazonense decretou situação de emergência. Segundo o Diário do Estad*, até 648 mil pessoas podem ser afetadas nos 62 municípios do Amazonas. Com a vazante ainda em curso, o desafio agora é impedir que os efeitos ambientais e sociais da seca avancem também sobre a atividade econômica.
Nesse contexto, o setor produtivo já trata a estiagem como um problema recorrente que exige planejamento antecipado. O CIEAM programou para 1º de outubro um encontro com representantes da indústria, especialistas em navegação, gestores logísticos e autoridades para discutir rotas alternativas, dragagem, gestão de pátios e desembaraço aduaneiro emergencial.
A estratégia é preparar a cadeia logística antes do período mais crítico da vazante e reduzir o risco de que rios cada vez mais baixos se transformem em falta de insumos, atrasos produtivos e custos adicionais para a Zona Franca de Manaus.
FUP Explica
A seca no Amazonas não é novidade, mas a combinação de El Niño muito forte com a dependência quase total do transporte fluvial cria um risco real para o Polo Industrial de Manaus. O PIM funciona com cadeias de suprimento apertadas: componentes chegam por rio, produtos saem por rio, e qualquer interrupção no fluxo pode parar linha de produção. Isso significa que o problema hidrológico vira rapidamente um problema econômico, com custos logísticos mais altos, atrasos de entrega e pressão sobre os estoques das empresas instaladas na Zona Franca.
No campo regulatório, a atuação da Antaq sobre a taxa de seca é um ponto de atenção para importadores e operadores de comex que movimentam carga pela Amazônia. A exigência de homologação e comprovação de custos antes da cobrança da Low Water Surcharge dá mais previsibilidade ao setor, mas também cria um processo que precisa ser acompanhado de perto, especialmente quando a vazante avança rápido e as companhias de navegação pressionam por reajustes.
Do ponto de vista social, a situação é grave independentemente da indústria: 648 mil pessoas potencialmente afetadas em 62 municípios, sistema de saúde sob pressão respiratória e governo estadual em situação de emergência formam um cenário que tende a demandar recursos federais e atenção política nos próximos meses. O encontro convocado pelo CIEAM para 1º de outubro será um termômetro de como o setor produtivo e as autoridades pretendem coordenar a resposta antes do pico da estiagem.