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UE eleva barreiras ao aço elétrico e acende alerta para siderúrgicas brasileiras
Comércio Exterior

Imagem gerada por IA

UE eleva barreiras ao aço elétrico e acende alerta para siderúrgicas brasileiras

25/09/2026 · 931 palavras

Novas salvaguardas estabelecem cotas e preços mínimos para importações, enquanto restrições ao mercado europeu podem redirecionar produtos asiáticos para outros países e intensificar a concorrência enfrentada pelo Brasil

A União Europeia passa a aplicar nesta sexta-feira (25) novas barreiras às importações de aço elétrico e produtos derivados, em mais um movimento para proteger sua indústria da entrada de mercadorias mais baratas, sobretudo asiáticas. As salvaguardas estabelecem cotas e preços mínimos enquanto a Comissão Europeia conclui uma investigação sobre o setor e reforçam uma política de defesa comercial que pode produzir efeitos além das fronteiras do bloco, com o possível redirecionamento de produtos para outros mercados e maior pressão competitiva sobre siderúrgicas de países como o Brasil.

Segundo a Reuters, as medidas atingem o aço elétrico de grão orientado, conhecido pela sigla GOES, além de lâminas e núcleos de transformadores fabricados com o material.

Diferentemente do aço convencional, essa categoria é produzida para apresentar propriedades magnéticas específicas e reduzir perdas de energia em equipamentos elétricos, sendo utilizada principalmente em transformadores e outros componentes de sistemas de geração e distribuição de eletricidade. Dentro das cotas estabelecidas pela União Europeia, o preço mínimo ficará entre € 2,8 mil e € 3,4 mil por tonelada métrica. Para os volumes que ultrapassarem esses limites, o piso será de € 3,5 mil por tonelada.

A decisão chama atenção porque a proteção não se limita à matéria-prima. O aço elétrico integra uma cadeia industrial diretamente relacionada à infraestrutura energética, e as novas regras também alcançam produtos derivados, protegendo diferentes etapas da produção europeia.

“O que é particularmente significativo é que, pela primeira vez, toda uma cadeia de valor, do aço elétrico ao núcleo do transformador, está sendo protegida, em vez de apenas um único produto”, afirmou Marie Jaroni, CEO da unidade siderúrgica TKSE, da Thyssenkrupp.

Para o Brasil, um dos principais pontos de atenção está justamente no possível efeito indireto desse fechamento do mercado europeu. Com cotas e preços mínimos mais elevados, fornecedores asiáticos podem encontrar maior dificuldade para comercializar parte de sua produção na União Europeia e buscar outros destinos. Esse movimento, caso se concretize, tende a aumentar a oferta em mercados onde produtores brasileiros também disputam espaço e, consequentemente, elevar a pressão sobre a siderurgia nacional.

O risco ganha relevância diante do peso da Ásia no abastecimento europeu. A China respondeu por mais de 50% das importações de aço elétrico e seus derivados realizadas pela União Europeia em 2025. Ao mesmo tempo, fabricantes europeus vêm pressionando Bruxelas por maior proteção diante da concorrência chinesa, movimento observado também em setores como o automotivo e o químico.

A indústria siderúrgica europeia já vinha sentindo os efeitos dessa disputa. Em 2025, a Thyssenkrupp anunciou paralisações temporárias em unidades de aço elétrico na Alemanha e na França diante da concorrência de produtos asiáticos. Fontes ouvidas pela Reuters apontaram que o excesso de capacidade vinha sendo vendido no mercado europeu com descontos de cerca de 25%.

As novas salvaguardas, entretanto, ainda são provisórias. A Comissão Europeia abriu em março uma investigação específica sobre as importações de GOES e continuará analisando o mercado durante a vigência das restrições. Caso Bruxelas decida tornar as medidas definitivas ao fim do processo, será necessária uma maioria qualificada entre os países integrantes da União Europeia.

As barreiras também se somam a instrumentos comerciais adotados anteriormente. Desde 2015, importações de aço elétrico provenientes da China, Japão, Rússia, Coreia do Sul e Estados Unidos estão sujeitas a medidas antidumping na União Europeia, inclusive por meio de preços mínimos. Agora, os novos pisos são significativamente superiores aos anteriores e passam a alcançar também produtos fabricados a partir desse aço.

Embora ainda não seja possível afirmar quanto da produção impedida de entrar na Europa será direcionada a outros países, a decisão de Bruxelas reforça uma tendência de maior proteção industrial no continente. Para as siderúrgicas brasileiras, o movimento exige atenção não apenas pelo acesso ao mercado europeu, mas pelo risco de que barreiras cada vez maiores na região desloquem produtos asiáticos para outros destinos e tornem a concorrência internacional mais intensa.

FUP Explica

A medida europeia é, na superfície, uma decisão de defesa comercial interna da UE, mas o efeito que mais interessa ao Brasil é o indireto: o desvio de comércio. Quando um grande mercado fecha a porta para fornecedores asiáticos, especialmente chineses, o volume que não entra na Europa não desaparece, ele procura outro destino. Se parte desse aço elétrico e de seus derivados migrar para mercados onde produtores brasileiros competem, a pressão de preço sobre a siderurgia nacional aumenta sem que o Brasil tenha tomado nenhuma decisão própria.

No plano econômico, o setor siderúrgico brasileiro já convive com concorrência intensa de produtos asiáticos. Uma eventual intensificação desse fluxo pode comprimir margens, reduzir utilização de capacidade instalada e, a médio prazo, pressionar empregos no setor. O fato de a proteção europeia abranger toda a cadeia, do aço bruto ao núcleo do transformador, amplia o espectro de produtos que podem ser desviados, o que torna o monitoramento mais complexo para a indústria e para os órgãos de defesa comercial brasileiros.

No plano jurídico e institucional, vale notar que as salvaguardas europeias ainda são provisórias e dependem do resultado de uma investigação em curso na Comissão Europeia. Se forem confirmadas, exigem maioria qualificada dos países-membros, o que abre espaço para negociação política dentro do bloco. Para o Brasil, esse intervalo é relevante: é o momento em que o governo e o setor privado podem acompanhar o processo em Bruxelas e avaliar se cabem representações em fóruns multilaterais, como a OMC, caso as medidas definitivas extrapolem os limites acordados nas regras de salvaguardas internacionais.