A mineradora australiana Viridis Mining and Minerals concluiu uma captação de US$ 154 milhões em capital próprio para desenvolver o projeto de terras raras Colossus, em Caldas, Minas Gerais. A rodada mais recente, de US$ 75 milhões, foi fechada com a gestora britânica One Investment Management (OneIM), especializada em investimentos alternativos e com US$ 11 bilhões em ativos sob gestão, segundo informou o Capital Reset nesta terça-feira, (8).
Os recursos serão destinados ao desenvolvimento do Colossus, que prevê o processamento de 5 milhões de toneladas de minério por ano para a produção de um concentrado misto com neodímio e praseodímio. Esses elementos são utilizados na fabricação de superímãs, motores de veículos elétricos, turbinas eólicas e equipamentos militares.
Rafael Moreno, diretor-executivo da Viridis, afirmou ao Capital Reset que a captação garante recursos suficientes para atender à necessidade indicativa de capital próprio do empreendimento e reduz os riscos relacionados à estruturação financeira antes da etapa de execução.
A empresa ainda busca complementar a estrutura de capital com financiamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), da agência canadense Export Development Canada (EDC) e do banco público francês Bpifrance.
O Projeto Colossus está localizado em depósitos de argila iônica semelhantes aos da Serra Verde, única mina de terras raras atualmente em produção no Brasil e recentemente adquirida pela USA Rare Earth. Entre as próximas etapas do projeto estão a conclusão de contratos firmes de compra futura, conhecidos como offtake, a estruturação do pacote de dívida com agências de fomento, a contratação dos serviços de engenharia, compras e gestão da construção (EPCM) e a aquisição de equipamentos com prazos mais longos de entrega.
Os contratos de offtake são utilizados para assegurar compradores para parte da produção futura e podem contribuir para a obtenção dos recursos necessários à implantação de projetos minerais.
O avanço do Colossus ocorre em um país que concentra a segunda maior reserva de terras raras do mundo. O Brasil possui cerca de 21 milhões de toneladas, equivalentes a aproximadamente 23% das reservas mundiais, segundo dados do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS).
As principais ocorrências brasileiras estão concentradas em Minas Gerais, Goiás, Amazonas, Bahia e Sergipe.
O Brasil já ocupou posição de destaque nesse mercado. Nas décadas de 1960 e 1970, foi o maior exportador mundial de terras raras, com produção baseada na monazita extraída no Espírito Santo, no Rio de Janeiro e em outras áreas do litoral.
Posteriormente, a China passou a ocupar a principal posição na produção do setor, com tecnologia baseada, entre outras fontes, em depósitos de argila. O país respondeu por quase 70% da produção mundial em 2024, quando foram produzidas quase 400 mil toneladas de terras raras.
A atividade de pesquisa mineral também cresceu no Brasil. Em 2024, os pedidos de pesquisa relacionados a terras raras aumentaram 291%, com 1.370 autorizações concedidas, principalmente na Bahia, em Minas Gerais e em Goiás, segundo a mesma fonte.
Senado aprova Política Nacional de Minerais Críticos
O Senado aprovou, em 2 de setembro de 2026, o Projeto de Lei 2.780, que cria a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos. O texto seguiu para sanção presidencial sem alterações relevantes em relação à versão aprovada pela Câmara dos Deputados.
A proposta institui o Conselho Nacional para Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos (CIMCE), vinculado à Presidência da República e composto por até 15 representantes de órgãos do Executivo, estados, Distrito Federal, municípios, setor privado e instituições de ensino superior.
Pelo texto aprovado pelo Congresso, o CIMCE, em conjunto com a Agência Nacional de Mineração (ANM), terá atribuições relacionadas à homologação de operações envolvendo minerais classificados como críticos e estratégicos.
Investidores ouvidos pelo Capital Reset avaliam que determinados dispositivos podem aumentar a imprevisibilidade para investimentos no setor, especialmente em questões relacionadas ao controle acionário e aos contratos de fornecimento. Essa avaliação representa a posição dos agentes consultados pelo veículo.
Demanda por minerais estratégicos estimula novos projetos
O interesse por terras raras, lítio e níquel cresceu com a demanda relacionada à transição energética, à inteligência artificial e aos sistemas de defesa. Esses minerais são utilizados em diferentes tecnologias, desde baterias e motores elétricos até equipamentos eletrônicos e militares.
Nesse cenário, empresas europeias e asiáticas têm firmado contratos antecipados de compra com mineradoras que ainda não iniciaram a produção. Esses acordos buscam assegurar o fornecimento futuro e reduzir a dependência da China, que concentra parte significativa da cadeia de processamento de minerais estratégicos.
FUP Explica
O avanço do projeto Colossus chega num momento em que o Brasil tenta transformar suas vastas reservas de terras raras em produção efetiva, algo que historicamente não conseguiu sustentar. A captação de US$ 154 milhões pela Viridis é um sinal de que o capital privado internacional enxerga viabilidade no país, mas o projeto ainda depende de contratos de offtake firmes e de financiamento de bancos de fomento como o BNDES, o que significa que há um caminho longo antes de qualquer tonelada ser produzida.
O nó político mais imediato é a nova legislação aprovada pelo Senado. A Política Nacional de Minerais Críticos cria um conselho com poder de homologar operações, e investidores já sinalizaram ao Capital Reset que o texto gera imprevisibilidade sobre controle acionário e contratos de fornecimento. Isso pode complicar exatamente o tipo de acordo de offtake que projetos como o Colossus precisam fechar para atrair dívida de agências de fomento. Ou seja, o governo aprova uma política para impulsionar o setor e, ao mesmo tempo, insere um mecanismo que o mercado lê como risco regulatório.
No plano mais amplo, o Brasil está tentando ocupar um espaço que a China domina há décadas. A demanda por neodímio e praseodímio, os elementos que o Colossus pretende produzir, tende a crescer com a expansão de veículos elétricos e turbinas eólicas, e países da Europa e da Ásia estão ativamente buscando fornecedores alternativos. Se o Brasil conseguir resolver a equação regulatória e viabilizar projetos como esse, pode se reposicionar numa cadeia de suprimentos que hoje passa quase inteiramente por Pequim. O risco é que a janela de oportunidade se feche antes de o país colocar a primeira mina em operação.