Gasolina, diesel e combustível de aviação já acrescentaram mais de US$ 100 bilhões às despesas dos consumidores americanos, enquanto a alta da energia alcança transportes, mercadorias e o custo de vida no país
Desde que a guerra com o Irã começou, no fim de fevereiro, abastecer um carro, transportar mercadorias ou viajar de avião ficou mais caro nos Estados Unidos. As restrições aos fluxos de petróleo no Oriente Médio elevaram os preços da energia e já acrescentaram mais de US$ 100 bilhões às despesas dos consumidores americanos, espalhando os efeitos do conflito para famílias, transportadoras e empresas em um momento em que a inflação do país permanece acima da meta do Federal Reserve.
Uma estimativa em tempo real da Watson School, da Universidade Brown, indicava, no início de setembro, que essa conta avançava cerca de US$ 1 milhão a cada dois minutos. Segundo a Axios, o levantamento já apontava US$ 100 bilhões em gastos adicionais com energia, com atenção especial ao diesel, cujo encarecimento tende a atingir também produtos e serviços que dependem do transporte rodoviário.
Estimativas posteriores indicaram uma conta ainda maior. O economista-chefe da Moody’s Analytics, Mark Zandi, calculou em US$ 115 bilhões os gastos adicionais provocados pela alta da gasolina, do diesel e do combustível de aviação. Em entrevista à Fox Business, Zandi afirmou que o valor corresponde a cerca de US$ 860 por família americana e atinge com maior intensidade as famílias de renda baixa e média, que possuem menos espaço no orçamento para absorver despesas mais altas com energia.
Parte desse avanço pode ser observada diretamente nos postos. Dados publicados pelo Times Brasil mostram que cerca de US$ 55 bilhões dos custos adicionais estavam relacionados à gasolina, cujo preço passou de US$ 2,98 para aproximadamente US$ 4,15 por galão, alta de 39%. No caso do diesel, o valor subiu de US$ 3,67 para US$ 5,90 por galão, avanço de aproximadamente 61% em relação ao ano anterior. Somente esse combustível já teria acrescentado US$ 45,5 bilhões às despesas dos americanos.
O diesel preocupa especialmente pelo peso que exerce sobre a cadeia logística. Caminhões dependem do combustível para transportar alimentos, encomendas e outros produtos pelo país, permitindo que o encarecimento da energia chegue aos custos de frete e, posteriormente, aos preços pagos pelos consumidores. O combustível de aviação acrescenta outra frente de pressão, uma vez que as companhias aéreas também enfrentam despesas maiores para manter suas operações.
Esse movimento ocorre enquanto a inflação americana continua distante da meta de 2% perseguida pelo Federal Reserve. O índice de preços de despesas de consumo pessoal (PCE) avançou 3,7% em julho na comparação anual, mesma taxa de junho e acima dos 2,9% registrados antes do início do conflito, em fevereiro. De acordo com a Associated Press, a inflação subjacente, que exclui as categorias mais voláteis de alimentos e energia, permaneceu em 3,3% no período.
No centro das preocupações com a oferta está o Estreito de Ormuz, passagem marítima próxima ao Irã por onde circula cerca de 20% do fornecimento mundial de petróleo. A importância da rota faz com que interrupções ou restrições ao tráfego de navios tenham potencial para afetar os preços internacionais da commodity e, consequentemente, os combustíveis produzidos a partir dela.
Enquanto persistirem as incertezas sobre o fluxo de petróleo pelo Oriente Médio, os efeitos econômicos da guerra tendem a ultrapassar o setor energético. Combustíveis mais caros elevam despesas domésticas, pressionam transportes e adicionam custos às cadeias de distribuição, criando condições para que uma crise iniciada a milhares de quilômetros dos Estados Unidos continue chegando ao orçamento dos consumidores americanos.
FUP Explica
O impacto mais imediato é sobre o bolso das famílias americanas, especialmente as de renda mais baixa, que gastam uma fatia maior da renda com transporte e energia e têm menos margem para absorver esse tipo de choque. Com o diesel 61% mais caro, o encarecimento não fica restrito ao posto de gasolina: ele percorre toda a cadeia de distribuição, chegando ao preço de alimentos, encomendas e bens de consumo em geral. Isso significa que a guerra com o Irã pressiona a inflação por duas vias ao mesmo tempo, tanto diretamente nos combustíveis quanto indiretamente nos fretes e nos preços ao consumidor.
Do ponto de vista do Federal Reserve, o cenário complica a vida de quem decide a política monetária. A inflação medida pelo PCE estava em 3,7% em julho, bem acima da meta de 2%, e o choque de energia tende a dificultar a convergência para esse patamar. Se o Fed precisar manter os juros elevados por mais tempo para conter a inflação, o custo do crédito segue alto para empresas e famílias, o que pode frear o crescimento econômico americano além do que o conflito em si já provoca.
O Estreito de Ormuz é o ponto de atenção central para os próximos meses. Por ali passa cerca de 20% do petróleo mundial, e qualquer escalada no conflito que restrinja ainda mais esse fluxo pode ampliar o choque já em curso. A incerteza sobre a duração e a intensidade da guerra torna difícil projetar quando, ou se, os preços voltam aos patamares anteriores a fevereiro, o que mantém empresas, transportadoras e governos em posição de espera.