Trump e Xi prolongam trégua comercial, mas impasse sobre a ilha mantém incertezas em torno das cadeias de semicondutores que abastecem setores como automóveis, eletrônicos, máquinas e equipamentos
Donald Trump e Xi Jinping encerraram nesta quinta-feira (24), em Washington, uma nova rodada de negociações entre Estados Unidos e China com dois meses adicionais de trégua comercial, mas sem reduzir um dos riscos mais sensíveis para a economia internacional: a tensão em torno de Taiwan. Durante a visita de Estado do presidente chinês à Casa Branca, o tema voltou ao centro das divergências entre as duas potências justamente por envolver uma região estratégica para a produção de semicondutores, componentes presentes em cadeias industriais que abastecem desde automóveis e eletrônicos até máquinas e equipamentos.
Para o Brasil, uma deterioração da situação no Estreito de Taiwan teria efeitos que poderiam ultrapassar a dimensão do próprio comércio bilateral entre China e Taiwan.
O principal ponto de atenção está na concentração asiática da produção de semicondutores e na dependência de diferentes setores industriais desses componentes. Eventuais interrupções na cadeia atingiriam empresas brasileiras que dependem de chips e componentes eletrônicos para produzir veículos, equipamentos, máquinas e bens de consumo.
O risco ganhou relevância durante o encontro porque Xi pediu que Washington trate a questão de Taiwan com “prudência” e manifestou a expectativa de que os Estados Unidos se oponham à independência da ilha. A formulação vai além da posição tradicional americana de não “apoiar” a independência taiwanesa. Até o momento, porém, não há indicação de que o governo Trump pretenda modificar oficialmente essa linguagem, segundo a Reuters.
Além da disputa diplomática, a venda de armamentos americanos a Taipei permanece como outro ponto de pressão. Em dezembro, o governo Trump aprovou um pacote de US$ 11 bilhões para Taiwan, o maior já autorizado, enquanto uma segunda operação, avaliada em aproximadamente US$ 14 bilhões, está suspensa há meses. Antes do encontro, o Ministério da Defesa chinês pediu “extrema cautela” aos Estados Unidos em relação a novas vendas e classificou Taiwan como a questão mais importante nas relações entre Pequim e Washington.
A segunda operação também passou a integrar as negociações entre as duas potências. Após uma reunião com Xi em Pequim, em maio, Trump afirmou que mantinha o pacote suspenso e chegou a descrevê-lo como um instrumento de negociação. Paralelamente, o governo taiwanês informou que permanecia em contato com Washington e agradeceu o apoio americano enquanto acompanhava os desdobramentos das conversas entre Trump e Xi.
Enquanto Taiwan permanece como um dos pontos mais delicados da relação, houve avanço temporário no comércio. Washington e Pequim concordaram em estender por dois meses a trégua que terminaria em novembro. Segundo o secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, o prazo adicional permitirá que os governos continuem negociando, embora questões como tarifas, compras chinesas de produtos americanos, fornecimento de terras raras e restrições tecnológicas continuem sem uma solução definitiva.
Entre as pendências, Bessent afirmou que a China está cumprindo o compromisso de comprar 25 milhões de toneladas de soja previsto no entendimento anterior, mas permanece abaixo da meta de adquirir US$ 17 bilhões em outros produtos agrícolas. Autoridades americanas também avaliam que as entregas chinesas de terras raras estão aquém do esperado, mantendo outra fonte de incerteza para cadeias industriais dependentes desses minerais.
As diferenças se estendem ainda à inteligência artificial. Trump defendeu a manutenção da atual abordagem americana, sem novas barreiras regulatórias, enquanto Xi argumentou que Estados Unidos e China têm responsabilidade sobre o desenvolvimento e a gestão da tecnologia.
Segundo o presidente chinês, a inteligência artificial deve permanecer sob controle humano e contribuir para o bem-estar da população.
Apesar dos impasses, Xi afirmou que uma escalada do confronto entre as duas potências pode ser evitada e defendeu diálogo militar regular e mecanismos de prevenção de crises. Trump, por sua vez, ressaltou interesses comuns entre os países. Para economias integradas às cadeias internacionais, como a brasileira, o avanço desse diálogo ganha importância não apenas pelo comércio com China e Estados Unidos, mas pelo risco de que uma crise no Estreito de Taiwan provoque interrupções no fornecimento de componentes essenciais à atividade industrial.
FUP Explica
O que saiu de Washington foi, essencialmente, uma compra de tempo. A prorrogação da trégua por dois meses evita que a escalada tarifária recomece imediatamente, mas não resolve nenhum dos nós que travam a relação entre as duas maiores economias do mundo. Do ponto de vista econômico, o descumprimento chinês na compra de produtos agrícolas além da soja e o fornecimento insuficiente de terras raras mostram que o acordo anterior não foi cumprido integralmente, o que fragiliza a confiança nas negociações e aumenta a pressão interna sobre o governo Trump para adotar postura mais dura na próxima rodada.
No plano político e diplomático, Taiwan concentra o risco mais imediato. A diferença de linguagem entre o que Pequim pede (que Washington se oponha à independência da ilha) e o que os Estados Unidos tradicionalmente dizem (que não apoiam a independência) pode parecer sutil, mas é politicamente relevante: qualquer concessão americana nesse ponto teria repercussão direta sobre a credibilidade dos compromissos de Washington com aliados na região. O pacote de armamentos de US$ 14 bilhões mantido em suspenso funciona como moeda de troca, o que significa que sua liberação ou cancelamento dependerá do andamento das negociações comerciais, misturando segurança e comércio de forma que complica ambas as agendas.
Na dimensão tecnológica, a divergência sobre inteligência artificial aponta para um campo de disputa que tende a crescer. A posição americana de evitar novas barreiras regulatórias e a posição chinesa de responsabilidade compartilhada entre as potências líderes do setor são difíceis de conciliar, especialmente porque as restrições de exportação de chips e tecnologia de ponta seguem vigentes. No curto prazo, o que o encontro produziu foi estabilidade mínima suficiente para manter o diálogo aberto, sem avanço real nas questões que mais importam.