Montadoras chinesas estão buscando fábricas existentes e linhas de produção subutilizadas na Europa para acelerar a produção de veículos no continente diante das futuras regras de conteúdo local da União Europeia, segundo reportagem da Reuters publicada nesta quinta-feira (17). As normas do chamado “Made in Europe” ainda estão em elaboração e podem ser introduzidas já em 2027.
A BYD está entre as fabricantes que procuram instalações. Alfredo Altavilla, consultor europeu da montadora, afirmou à Reuters que a empresa avalia fábricas em diferentes países e considera Espanha e França as opções mais viáveis para uma nova unidade. Um dos principais critérios é o custo necessário para reformar as instalações existentes.
“Temos que encontrar algo para comprar agora e restaurá-lo com relativamente pouco dinheiro… rapidamente”, afirmou Altavilla durante a inauguração de uma concessionária da Denza, marca da BYD, em Turim, na Itália, na noite de quarta-feira (16).
O executivo disse que visita fábricas em diferentes países europeus e que a BYD mantém uma equipe dedicada a estudos de viabilidade das instalações consideradas pela companhia. Após o evento em Turim, Altavilla afirmou que viajaria ao Reino Unido para visitar outra unidade.
A BYD está na fase inicial de produção de sua primeira fábrica europeia de automóveis, localizada na Hungria, e pretende escolher até o fim de 2026 o local de uma segunda unidade no continente. A fabricante deverá contar, futuramente, com três fábricas de montagem e uma unidade de baterias na Europa.
Além de Espanha e França, outros países continuam sendo avaliados. Altavilla afirmou que a Itália passou a ser uma alternativa secundária porque a Stellantis não pretende vender fábricas no país.
Outras fabricantes chinesas já estabeleceram acordos para utilizar linhas de produção em fábricas europeias subutilizadas. Segundo a Reuters, Leapmotor e Dongfeng fecharam acordos com a Stellantis para produção na Espanha e na França, respectivamente. A Geely estabeleceu acordo com a Ford na Espanha, enquanto a Chery se associou a um parceiro local para assumir uma antiga fábrica da Nissan no país.
A BYD pretende seguir um modelo diferente. Aempresa busca adquirir uma fábrica existente e reformá-la para acelerar o início da produção local.
União Europeia prepara regras de conteúdo local
A União Europeia trabalha na elaboração das regras do “Made in Europe”, que deverão estabelecer limites mínimos de conteúdo local para veículos elétricos comercializados no bloco. Segundo a Reuters, as normas ainda estavam em desenvolvimento em 17 de setembro de 2026 e poderiam ser introduzidas já em 2027.
FUP Explica
O que está em curso na Europa é uma corrida contra o relógio regulatório. As montadoras chinesas sabem que, uma vez que as regras de conteúdo local entrem em vigor, importar carros prontos da China e vendê-los na UE ficará muito mais caro ou simplesmente inviável. Produzir localmente é a saída, e comprar uma fábrica ociosa é muito mais rápido do que erguer uma planta nova.
Por isso a disputa por ativos industriais subutilizados, que até pouco tempo atrás eram passivo para grupos como Stellantis e Nissan, virou uma corrida com múltiplos compradores interessados ao mesmo tempo.
Para a indústria europeia, o movimento tem dois lados. De um lado, as montadoras tradicionais conseguem monetizar fábricas que estavam paradas ou subutilizadas, o que alivia pressão financeira em um setor que enfrenta transição cara para o elétrico. De outro, as chinesas que se instalarem na Europa com produção local vão competir diretamente com as europeias no mesmo mercado, com a vantagem de dominar a cadeia de baterias e ter escala industrial consolidada.
A regra de conteúdo local foi pensada para proteger a indústria europeia, mas pode acabar acelerando a entrada das chinesas no coração produtivo do continente.
No plano geopolítico, o cenário é de dois blocos ocidentais, Europa e EUA, usando barreiras regulatórias distintas para conter a expansão chinesa, mas sem coordenação entre si. A tarifa americana de 25% sobre carros europeus e a regulamentação Biden sobre veículos conectados criam obstáculos adicionais que tornam a Europa o campo de batalha mais acessível para as chinesas no curto prazo.
Quem fechar os acordos de produção antes da entrada em vigor das regras europeias sai na frente, e é isso que explica a velocidade com que esses movimentos estão acontecendo agora.