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Risco de guerra encarece seguro de petroleiros no Mar Vermelho e em Ormuz
Comércio Exterior

Imagem gerada por IA

Risco de guerra encarece seguro de petroleiros no Mar Vermelho e em Ormuz

25/09/2026 · 1003 palavras

Prêmios chegam a milhões de dólares por viagem enquanto conflitos atingem rotas usadas pela Arábia Saudita para escoar petróleo e obrigam armadores a recalcular custos e trajetos

A escalada dos conflitos no Oriente Médio está elevando o custo para manter navios-tanque em circulação por algumas das principais rotas de petróleo da região. Depois de o bloqueio do Estreito de Ormuz pressionar os seguros das embarcações que cruzam o Golfo Pérsico, os prêmios de risco de guerra também triplicaram em poucas semanas para petroleiros ligados à Arábia Saudita no Mar Vermelho.

O encarecimento ocorre em meio a ataques e restrições à navegação que atingem justamente as rotas usadas pelo país para escoar sua produção e levam armadores e seguradoras a rever preços e trajetos.

Na costa saudita do Mar Vermelho, os prêmios cobrados de navios-tanque com escala em Yanbu chegaram a cerca de 3% do valor da embarcação, ante menos de 1% no início de julho. Segundo fontes da indústria ouvidas pela Reuters em reportagem publicada pelo MarineLink, a situação é ainda mais crítica nos portos ao sul de Yanbu, como Jizan, onde as cotações podem alcançar 7%, nível próximo dos 6% a 9% registrados em determinadas travessias pelo Estreito de Ormuz.

A pressão sobre os seguros ocorre enquanto a Arábia Saudita busca alternativas para manter suas exportações. Depois de o Irã restringir os embarques pelo Estreito de Ormuz, em março, em resposta aos ataques dos Estados Unidos e de Israel, o país passou a utilizar o oleoduto East-West para direcionar cerca de 4 milhões de barris por dia, equivalentes a aproximadamente 4% da oferta mundial, ao Mar Vermelho.

A alternativa, porém, também foi afetada pelo conflito: ataques de drones levaram à interrupção do oleoduto em 11 de setembro e, embora os volumes estejam sendo recompostos, os carregamentos em Yanbu ainda não haviam sido retomados.

Com as duas rotas expostas, o custo do risco pode acrescentar milhões de dólares a uma única viagem. Os prêmios de guerra normalmente cobrem períodos de sete dias e são revistos a cada 24 horas. Pelas cotações atuais, uma saída de Yanbu pode custar cerca de US$ 3 milhões somente em seguro, enquanto viagens a partir de portos sauditas mais ao sul ou por Ormuz podem chegar a aproximadamente US$ 7 milhões.

Antes da guerra, o custo partia de cerca de US$ 100 mil. Além disso, produtores precisam desembolsar pelo menos US$ 500 mil por dia pelo afretamento de um petroleiro, enquanto o combustível pode adicionar mais de US$ 100 mil à viagem.

Em Ormuz, a volatilidade também mudou a maneira como as coberturas são negociadas. Segundo a CNN Brasil, após Teerã bloquear o estreito em resposta aos ataques dos Estados Unidos e de Israel, apólices de risco de guerra foram canceladas e reativadas rapidamente a preços mais altos. No início do conflito, as taxas chegaram a 10% do valor da embarcação, ante aproximadamente 0,25% a 0,5% antes da guerra, de acordo com Marcus Baker, chefe de seguros marítimos e de carga da Marsh. Posteriormente, os valores recuaram para uma faixa entre 1% e 3%.

A rapidez das mudanças também encurtou o prazo das negociações. David Smith, chefe da área marítima da McGill and Partners, afirmou que seguradoras passaram a precificar coberturas apenas seis horas antes da entrada de um navio em Ormuz, em vez das habituais 24 a 48 horas. Depois de emitidas, as apólices permanecem válidas por apenas três a sete dias antes de precisarem ser renegociadas.

O cenário tornou mais difícil escolher entre as duas principais rotas. Pankaj Khanna, CEO da Heidmar Maritime Holdings, afirmou à Reuters que atravessar Ormuz pode ser atualmente mais simples devido à presença de apoio militar dos Estados Unidos na região, enquanto não há proteção equivalente no Mar Vermelho. Diante do risco, a companhia passou a evitar portos sauditas, embora continue operando tanto em Ormuz quanto no Mar Vermelho.

Operadores também começaram a avaliar outros caminhos para movimentar o petróleo saudita. Entre as alternativas está a transferência de cargas entre navios em Port Said, no Mediterrâneo egípcio, permitindo que as embarcações sigam pelo Mar Vermelho e pelo estreito de Bab el-Mandeb. Para cargas destinadas à Ásia, contornar o sul da África também permanece como opção, mas acrescenta distância, tempo e custos à viagem. Com diferentes corredores marítimos afetados simultaneamente pelo conflito, o seguro passou a representar uma parcela cada vez mais relevante do custo de transportar petróleo pela região.

FUP Explica

O que esta notícia mostra, na prática, é que o conflito no Oriente Médio já está sendo precificado diretamente no custo de mover petróleo pelo mundo. Quando o seguro de uma única viagem salta de US$ 100 mil para US$ 3 milhões ou US$ 7 milhões, esse custo não fica represado no armador: ele tende a ser repassado ao longo da cadeia, pressionando o preço do petróleo transportado e, por consequência, os derivados que chegam ao consumidor final em qualquer país importador, inclusive o Brasil.

Do ponto de vista econômico, a simultaneidade do problema é o que mais pesa. Ormuz e o Mar Vermelho são os dois principais corredores de saída do petróleo saudita, e os dois estão sob pressão ao mesmo tempo. O oleoduto East-West, que seria a saída terrestre alternativa, foi interrompido por ataques de drones em setembro. Isso significa que não há rota de fuga barata disponível, e as alternativas, como contornar a África, encarecem ainda mais o frete. Para países que dependem do petróleo do Golfo Pérsico, como vários importadores asiáticos, o impacto no custo de abastecimento pode ser relevante.

No campo institucional e de mercado, chama atenção a velocidade com que as seguradoras estão operando: apólices sendo precificadas seis horas antes da entrada do navio no estreito, válidas por no máximo sete dias, revisadas a cada 24 horas. Esse ritmo torna o planejamento logístico muito mais difícil e caro para armadores e produtores. A incerteza sobre quando as rotas voltarão a operar normalmente, somada à ausência de proteção militar equivalente à de Ormuz no Mar Vermelho, tende a manter os prêmios elevados enquanto o conflito não se resolver.