Omã apresentou ao Irã, em 28 de julho de 2026, uma proposta apoiada por estados do Golfo para administrar o Estreito de Ormuz por meio da cobrança de taxas voluntárias de navios que utilizem a passagem. A informação foi confirmada por uma fonte do Golfo e por um diplomata ocidental ouvidos pela Reuters.
A proposta surge num contexto de bloqueio prolongado. Após o ataque conjunto dos Estados Unidos e de Israel ao Irã, em 28 de fevereiro de 2026, Teerã fechou o estreito a embarcações de terceiros, interrompendo o fluxo por uma rota por onde fluía cerca de um quinto do petróleo e do gás natural liquefeito mundiais antes do conflito, segundo a Reuters.
O mecanismo proposto por Omã tem uma contradição no centro: a taxa é voluntária, mas, na prática, torna-se difícil de recusar e igualmente difícil de contestar juridicamente. Conforme apontou o Container News em 30 de julho de 2026, isso transforma o Estreito de Ormuz de uma coordenada geográfica em uma espécie de instituição com poder de arrecadação, ainda que informal.
A voluntariedade, nesse modelo, funciona simultaneamente como argumento de legitimidade e como principal vulnerabilidade política do plano.
Washington rejeitou a proposta de imediato. Um oficial americano reiterou à Reuters, na mesma data, que o estreito é uma hidrovia internacional e deve permanecer livre de controle ou restrições iranianas. O mesmo oficial afirmou que o acordo em discussão não incluiria qualquer pedágio ou taxa.
O cenário diplomático ao redor das negociações permanece instável. O presidente Donald Trump encerrou abruptamente uma campanha de bombardeios de duas semanas no fim de semana anterior a 28 de julho de 2026, declarando que havia “boas conversas” em andamento com o Irã, mas ameaçando retomar os ataques caso as negociações não avançassem, conforme reportou a Reuters. O Irã, por sua vez, negou estar buscando retomar conversas com os EUA e afirmou que manteria o cessar-fogo enquanto Washington fizesse o mesmo.
Ainda assim, o Comando Central americano informou, em 28 de julho de 2026, que o Irã lançou múltiplos mísseis balísticos em uma tentativa de ataque surpresa contra forças dos EUA no Oriente Médio, todos interceptados com sucesso. Na mesma data, a Arábia Saudita relatou que suas defesas aéreas destruíram drones direcionados a instalações petrolíferas, lançados de território iraquiano por milícias apoiadas pelo Irã, de acordo com o porta-voz do Ministério da Defesa saudita, Turki al-Maliki, citado pela Reuters. Ataques de drones também foram registrados na Jordânia e no norte do Irã.
Corredor omanense e histórico do bloqueio
Um acordo firmado no mês anterior a 28 de julho de 2026 entre os Estados Unidos e outras partes havia criado um corredor alternativo acompanhando a costa omanense, mas o Irã manteve restrições ao uso dessa rota. Desde então, os EUA passaram a escoltar embarcações comerciais pelo corredor omanense sem cobrar pelo serviço.
A proposta omanense, se aceita, criaria um precedente inédito: uma hidrovia reconhecida pelo direito internacional como de livre passagem passaria a operar com uma estrutura de cobrança, ainda que sem caráter obrigatório formal. A resistência americana coloca o plano em rota de colisão com Washington, mesmo contando com o apoio de estados do Golfo.
FUP Explica
O que Omã está tentando fazer é criar um fato institucional onde hoje existe apenas um impasse militar. A taxa voluntária é, na prática, uma forma de dar ao Irã uma fonte de receita e de reconhecimento sobre o estreito sem precisar chamar isso de soberania, o que seria inaceitável para o direito internacional e para os EUA. O problema é que “voluntário” num corredor bloqueado é uma palavra que carrega muito menos liberdade do que parece: quem recusa paga o preço de não passar.
Para Washington, aceitar qualquer versão desse modelo, mesmo informal, seria reconhecer que o Irã tem algum poder de gestão sobre uma hidrovia internacional, o que contradiz diretamente a posição americana de que o estreito deve permanecer livre de controle iraniano. Isso explica a rejeição imediata, mesmo com estados do Golfo apoiando a proposta.
No médio prazo, o risco maior é a consolidação de um modelo híbrido em que a passagem pelo Ormuz depende de negociações caso a caso, com taxas informais e escolta militar americana operando em paralelo. Isso eleva o custo e a imprevisibilidade para qualquer embarcação que precise transitar pela região, e torna o estreito menos uma rota e mais um campo de disputa permanente entre potências.